O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS), anunciou nesta sexta-feira (29) que uma reunião será realizada no Congresso Nacional para ouvir representantes da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil e do governo Lula (PT) sobre a recente classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo americano. A medida, tomada após visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Washington, gerou reações divergentes no cenário político brasileiro e acendeu um debate sobre soberania nacional e cooperação internacional no combate ao crime organizado.
A decisão dos Estados Unidos, anunciada no último dia 26, incluiu as duas maiores facções criminosas do Brasil na lista de organizações terroristas estrangeiras, o que permite ao governo americano bloquear ativos financeiros, proibir transações comerciais e processar criminalmente qualquer pessoa ou entidade que ofereça apoio material aos grupos. Para Nelsinho Trad, a classificação levanta questões diplomáticas e jurídicas que precisam ser esclarecidas. “Precisamos entender os critérios utilizados pelos EUA e como isso afeta a política externa brasileira, especialmente em relação à cooperação em segurança pública”, afirmou o senador.
Panorama político e reações
A classificação ocorre em um momento de tensão entre os poderes no Brasil, com o governo Lula sendo pressionado por setores da oposição a adotar uma postura mais dura contra o crime organizado. Enquanto aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) comemoraram a medida como um reconhecimento internacional da gravidade da violência no país, integrantes da base governista criticaram a ingerência externa. O senador Flávio Bolsonaro, que articulou a visita aos EUA, defendeu a decisão como “um passo importante para isolar financeiramente as facções”. Já o Itamaraty, em nota oficial, afirmou que “a classificação unilateral não reflete a posição do Brasil e pode prejudicar acordos de cooperação já estabelecidos”.
Especialistas em segurança pública apontam que a medida americana pode ter impactos concretos no combate ao tráfico de drogas e armas, mas também levanta preocupações sobre a possibilidade de uso político da classificação. “O CV e o PCC são organizações criminosas, mas classificá-los como terroristas pode abrir precedentes perigosos para a criminalização de movimentos sociais e políticos”, alertou o cientista político Carlos Melo, do Insper. A reunião no Congresso, ainda sem data definida, deverá contar com a participação de diplomatas americanos, representantes do Ministério das Relações Exteriores e da Polícia Federal, além de parlamentares da base e da oposição.
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