Um projeto pioneiro desenvolvido no sistema prisional de Alagoas, que utiliza a leitura como instrumento de ressocialização e transformação de vidas, foi apresentado nesta semana ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), em evento que reuniu magistrados, servidores e representantes do sistema de justiça. A iniciativa, que já beneficiou centenas de pessoas privadas de liberdade no estado nordestino, agora serve de inspiração para outras unidades da federação, demonstrando que o acesso ao conhecimento pode ser uma ferramenta eficaz na redução da reincidência criminal e na promoção da dignidade humana.
Durante a apresentação, realizada no auditório do TJMT, os idealizadores do projeto detalharam a metodologia aplicada nas unidades prisionais alagoanas, que combina círculos de leitura, mediação de leitura e produção textual. A cada livro lido e resenha produzida, o participante tem direito à remição de pena, conforme previsto na Lei de Execução Penal. O projeto, que começou de forma experimental em uma única unidade, hoje está expandido para diversas penitenciárias de Alagoas, com resultados expressivos: redução de conflitos internos, aumento da autoestima dos detentos e queda nos índices de reincidência.
Impacto social e replicabilidade
O modelo alagoano chamou a atenção do TJMT por sua simplicidade e baixo custo operacional. Diferente de programas que exigem grandes investimentos em infraestrutura, a iniciativa se baseia na doação de livros, na capacitação de agentes penitenciários e voluntários, e na parceria com bibliotecas públicas e universidades. Em Mato Grosso, o tribunal já estuda a possibilidade de adaptar o projeto à realidade local, aproveitando a estrutura existente do sistema prisional e o acervo bibliográfico disponível.
O evento contou com a presença de representantes da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos de Alagoas, que destacaram a importância de políticas públicas baseadas em evidências. “Não se trata de um favor, mas de um direito. A leitura abre portas para o conhecimento, para a reflexão e para a construção de um novo projeto de vida”, afirmou um dos coordenadores do projeto. Dados apresentados mostram que, entre os participantes do programa, a reincidência caiu para menos de 10%, enquanto a média nacional ultrapassa 40%.
Panorama político e desafios do sistema prisional
A apresentação do projeto alagoano no TJMT ocorre em um momento de intenso debate nacional sobre o sistema prisional brasileiro, que enfrenta superlotação, violência e falta de políticas efetivas de ressocialização. Iniciativas como essa ganham relevância em um contexto em que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública têm incentivado a adoção de métodos alternativos de cumprimento de pena, com foco na reintegração social.
Em Mato Grosso, o tribunal já desenvolve programas de remição pela leitura, mas a troca de experiências com Alagoas pode aprimorar as práticas existentes. A expectativa é que, nos próximos meses, seja firmado um termo de cooperação técnica entre os dois estados, permitindo a capacitação de servidores e a troca de materiais pedagógicos. Para especialistas, a leitura no cárcere não é apenas uma ferramenta de redução de danos, mas um direito humano fundamental, capaz de devolver a esperança a quem um dia perdeu a liberdade.
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