Zelle, o ‘Pix americano’, entra na mira de negociações entre Brasil e EUA em meio a críticas de Trump ao sistema brasileiro

Em meio às crescentes tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu na quarta-feira (3) que o Brasil pode “ir para a mesa de negociação” ao mencionar o uso do Zelle, sistema de pagamentos que ele chamou de “o Pix americano”. A declaração ocorre em um contexto de críticas do governo de Donald Trump ao Pix, acusando o Banco Central do Brasil de favorecer o sistema de forma discriminatória contra empresas americanas.

A proposta de Eduardo Bolsonaro insere o Zelle como uma possível contrapartida nas discussões bilaterais, que envolvem não apenas tecnologia financeira, mas também barreiras comerciais e regulação de mercado. O Zelle, operado por um consórcio de grandes bancos dos EUA, como JPMorgan Chase, Bank of America e Wells Fargo, permite transferências instantâneas entre contas bancárias americanas, mas, diferentemente do Pix, não é uma plataforma pública e gratuita para todos os cidadãos. Enquanto o Pix é gerido pelo Banco Central e atende a mais de 160 milhões de brasileiros, o Zelle tem alcance restrito a clientes de bancos participantes e é focado no mercado doméstico dos EUA.

O que está em jogo nas negociações?

As críticas do governo Trump ao Pix, formalizadas em comunicado do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), apontam que o sistema brasileiro cria vantagens competitivas para empresas nacionais em detrimento de concorrentes americanas, como a Visa e a Mastercard. O USTR alega que o Banco Central favorece o Pix ao isentá-lo de taxas de intercâmbio e ao promover sua adoção em larga escala, o que prejudicaria a participação de empresas estrangeiras no mercado de pagamentos brasileiro. Em resposta, o Brasil defende que o Pix é uma política pública de inclusão financeira e que não há discriminação, já que qualquer empresa pode operar no país desde que cumpra as regras locais.

A sugestão de Eduardo Bolsonaro de usar o Zelle como moeda de troca nas negociações reflete um movimento de setores políticos que buscam alinhamento com a agenda de Trump, especialmente em temas de desregulamentação e abertura de mercado. No entanto, especialistas apontam que o Zelle não é uma alternativa viável ao Pix em termos de escala, gratuidade e capilaridade, além de ser um sistema privado e restrito a um público específico. A proposta, portanto, pode ser vista mais como um gesto político do que uma solução técnica para o impasse comercial.

O debate sobre o Zelle e o Pix ocorre em um momento de reconfiguração das relações bilaterais, com o governo brasileiro buscando equilibrar a defesa de suas políticas públicas com a necessidade de manter boas relações comerciais com os EUA, um dos principais parceiros econômicos do país. Enquanto isso, o Banco Central mantém a posição de que o Pix é um instrumento de soberania nacional e inclusão financeira, e que qualquer negociação deve respeitar o interesse público.

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