Uma jiboia de aproximadamente 1,5 metro foi encontrada dentro do motor de uma caminhonete na manhã desta quinta-feira (26) em uma rodovia de Pernambuco. O animal, que ficou preso entre as peças do veículo, foi resgatado com apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Corpo de Bombeiros de Pernambuco, sem ferimentos. O caso, registrado no Km 42 da BR-232, próximo ao município de Vitória de Santo Antão, mobilizou equipes especializadas e reacendeu o alerta sobre a presença de animais silvestres em áreas urbanas e rodovias.
De acordo com informações da PRF, a equipe foi acionada por volta das 9h30 por motoristas que trafegavam pela rodovia e notaram movimentação incomum no capô do veículo. O condutor da caminhonete, um homem de 42 anos que não teve o nome divulgado, relatou que não percebeu a presença da jiboia durante o trajeto e só parou após ouvir gritos de outros motoristas. O animal estava alojado entre o motor e a carcaça do veículo, o que exigiu o uso de ferramentas especiais para a retirada. O Corpo de Bombeiros foi chamado e, em cerca de 20 minutos, conseguiu remover a jiboia com segurança, utilizando ganchos e luvas de proteção. A serpente, identificada como uma jiboia-constritora (Boa constrictor), foi encaminhada ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) de Pernambuco, onde passará por avaliação veterinária antes de ser devolvida à natureza.
Impacto ambiental e segurança viária
O incidente na BR-232 não é isolado. Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) indicam que, somente em 2025, foram registrados mais de 1.200 resgates de animais silvestres em rodovias federais de Pernambuco, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Especialistas apontam que a expansão urbana desordenada e o desmatamento de áreas de mata atlântica no estado têm forçado espécies como a jiboia a buscar abrigo em locais inusitados, como motores de veículos, residências e estabelecimentos comerciais. O biólogo Carlos Alberto Silva, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explicou que a jiboia é uma espécie não peçonhenta e de hábitos noturnos, mas que pode se tornar agressiva quando se sente ameaçada. “O resgate bem-sucedido mostra a importância da atuação conjunta entre órgãos de segurança e ambientais, mas também evidencia a necessidade de políticas públicas de preservação de habitats naturais”, afirmou.
O caso também gerou debates nas redes sociais sobre a segurança de motoristas e pedestres. A PRF reforçou a orientação para que condutores mantenham a calma ao avistar animais em rodovias e acionem imediatamente as autoridades, evitando tentativas de resgate por conta própria. Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco (Semas) destacou que está intensificando ações de educação ambiental em comunidades próximas a áreas de preservação, como a Reserva Biológica de Saltinho, localizada a cerca de 30 km do local do resgate. A pasta também informou que, em parceria com o Departamento de Estradas de Rodagem (DER), estuda a instalação de passagens de fauna em trechos críticos da BR-232, medida que pode reduzir em até 70% os atropelamentos e incidentes com animais silvestres.
Panorama político e ações governamentais
O episódio ocorre em meio a um cenário de tensão política em Pernambuco, onde o governo estadual, sob a gestão da governadora Raquel Lyra (PSDB), enfrenta críticas da oposição por cortes no orçamento ambiental. Dados do Portal da Transparência do Estado mostram que os recursos destinados ao Programa de Proteção à Fauna Silvestre caíram 12% em 2025, em comparação com 2024, totalizando R$ 8,2 milhões. A Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) aprovou, em junho, um requerimento de audiência pública para discutir o tema, com participação de representantes do Ibama, da Semas e de organizações não governamentais, como a Associação Pernambucana de Defesa da Natureza (Apedema). O deputado estadual João Paulo Costa (PCdoB), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alepe, afirmou que o resgate da jiboia é um “sinal de alerta” para a necessidade de investimentos em fiscalização e preservação. “Não podemos tratar esses casos como meras curiosidades. Eles refletem um problema estrutural que exige ação coordenada entre os poderes Executivo, Legislativo e a sociedade civil”, declarou.
Enquanto isso, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, comandado pela ministra Marina Silva (Rede), anunciou, na última semana, a liberação de R$ 50 milhões para projetos de conservação da biodiversidade no Nordeste, com foco em Pernambuco e na Bahia. A verba será destinada a ações de reflorestamento, criação de corredores ecológicos e capacitação de brigadas de resgate. O anúncio foi bem recebido por ambientalistas, mas criticado por setores do agronegócio, que alegam falta de diálogo com produtores rurais. A jiboia resgatada, após ser avaliada pelo CETAS, deverá ser solta em uma área de preservação na Mata Sul de Pernambuco, região que concentra os últimos remanescentes de mata atlântica do estado. O caso, embora pontual, serve como um microcosmo dos desafios ambientais e políticos que o Brasil enfrenta em 2026, ano eleitoral, onde a pauta ecológica promete ser um dos temas centrais do debate público.
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