Há menos de quatro anos, o cenário político brasileiro viveu um de seus momentos mais críticos desde a redemocratização: o então presidente Jair Bolsonaro (PL) consultava a cúpula militar sobre a possibilidade de reversão dos resultados da eleição de 2022, da qual Lula (PT) saiu vencedor. Esse episódio, hoje amplamente documentado, serve como pano de fundo para o lançamento de um livro que propõe a ‘radicalização democrática’ como caminho para conter o avanço autoritário no país. A obra, divulgada em 11 de junho de 2026, chega em um momento em que o debate sobre a solidez das instituições brasileiras permanece aceso, especialmente após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e as investigações que revelaram a profundidade da trama para subverter o resultado das urnas.
O livro, cujo título ainda não foi divulgado integralmente, defende que a democracia representativa tradicional precisa ser aprofundada com mecanismos de participação popular direta, controle social sobre os poderes e fortalecimento dos canais de accountability. A proposta surge como resposta direta ao que os autores chamam de ‘autoritarismo à brasileira’, que teria encontrado terreno fértil na polarização política e na fragilidade de certos pilares institucionais. A publicação não se limita a analisar o passado recente, mas oferece um conjunto de medidas práticas, como a ampliação de plebiscitos e referendos, a criação de conselhos populares com poder deliberativo e a reforma do sistema de justiça para torná-lo mais permeável à sociedade.
O contexto da trama golpista e o papel das Forças Armadas
O episódio mencionado na obra — a consulta de Bolsonaro à cúpula militar sobre a reversão do resultado eleitoral — é tratado como um sintoma do que os autores classificam como ‘autoritarismo de coalizão’, no qual setores das Forças Armadas atuaram como fiadores de uma agenda de ruptura. Dados da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) de 2023 e de investigações da Polícia Federal indicam que, entre outubro e dezembro de 2022, Bolsonaro reuniu-se com comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica para sondar a possibilidade de uma intervenção militar que impedisse a posse de Lula. A recusa dos altos comandos em aderir ao plano, conforme depoimentos tornados públicos, não impediu que a trama continuasse por meio de milícias digitais e grupos radicais que, meses depois, invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília.
A obra sugere que a ‘radicalização democrática’ passa, necessariamente, pela revisão do papel das Forças Armadas na Constituição de 1988, limitando sua atuação a missões de defesa externa e extinguindo o poder moderador que, na prática, foi exercido em momentos de crise. Além disso, propõe a criação de um sistema nacional de participação popular que inclua orçamentos participativos vinculantes e a obrigatoriedade de consultas públicas antes de decisões legislativas de grande impacto. Os autores argumentam que a mera alternância de poder entre grupos políticos não é suficiente para garantir a estabilidade democrática se a população não tiver canais efetivos de influência sobre as decisões que afetam suas vidas.
Impactos e repercussões no cenário político atual
O lançamento do livro ocorre em um momento em que o governo Lula enfrenta desafios para aprovar reformas estruturais no Congresso Nacional, enquanto setores da oposição, incluindo aliados de Bolsonaro, tentam reabilitar a imagem do ex-presidente, que segue inelegível até 2030. A proposta de radicalização democrática já gerou reações divididas: partidos de esquerda e movimentos sociais elogiaram a iniciativa como necessária para aprofundar a cidadania, enquanto parlamentares de centro-direita e conservadores criticaram o que chamam de ‘populismo institucional’ e alertaram para o risco de enfraquecimento dos poderes constituídos. Especialistas em ciência política consultados pela reportagem destacam que, embora a ideia de ampliar a participação popular seja bem-vinda, sua implementação exigiria mudanças constitucionais profundas e um amplo pacto político que, no atual clima de polarização, parece distante.
A obra também dialoga com experiências internacionais, como os conselhos populares na Venezuela e os orçamentos participativos em cidades europeias, mas ressalta que o modelo brasileiro precisa ser adaptado à realidade local, marcada por desigualdades regionais e uma forte cultura de clientelismo. Os autores defendem que a radicalização democrática não é sinônimo de ruptura institucional, mas sim de um aprofundamento gradual e negociado dos mecanismos de controle social. O livro chega às livrarias em um momento em que o Brasil se prepara para as eleições de 2026, e a expectativa é que a obra alimente o debate público sobre os rumos da democracia no país, especialmente entre jovens e movimentos sociais que buscam alternativas ao modelo representativo tradicional.
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