O filme Dark Horse — que significa “azarão”, em inglês —, produzido em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), teve custo total de US$ 13,4 milhões, equivalentes a cerca de R$ 75 milhões, e não recebeu incentivos ou recursos públicos, conforme perícia privada contratada pela defesa da produtora Go Up Entertainment. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (12) e já levanta questionamentos sobre a viabilidade financeira e o impacto político da obra, que pode ter sua exibição adiada após desgaste público e judicial.
A perícia, realizada por empresa especializada a pedido da defesa da Go Up Entertainment, detalhou que todo o montante foi custeado por investidores privados, sem qualquer aporte de leis de incentivo fiscal ou fundos estatais. O valor, considerado elevado para uma produção nacional independente, supera o orçamento de diversos filmes vencedores do Oscar, como apontou reportagem anterior da Folha de S.Paulo. A produtora, no entanto, não divulgou a lista de investidores nem esclareceu a origem exata dos recursos, o que alimenta especulações sobre possíveis vínculos políticos ou empresariais.
Contexto político e judicial
O anúncio ocorre em meio a um cenário de forte polarização no país, com Jair Bolsonaro sendo alvo de investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) e de processos na Justiça Eleitoral. A produção do filme, que inicialmente seria uma homenagem ao ex-presidente, passou a ser vista por parte da oposição como uma tentativa de reabilitação de sua imagem. Nos bastidores, aliados de Bolsonaro comemoram a iniciativa, enquanto críticos apontam que o alto custo poderia ter sido direcionado a políticas culturais mais amplas.
O desgaste em torno do projeto se intensificou após vazamentos de bastidores e críticas de setores do mercado audiovisual, que questionam a transparência dos gastos. A possibilidade de adiamento da exibição, segundo fontes próximas à produção, seria uma estratégia para evitar que o filme se torne alvo de protestos ou boicotes em meio ao clima eleitoral de 2026. A Go Up Entertainment não confirmou oficialmente a nova data de lançamento, mas admite que “reavalia o calendário” diante do cenário.
Impacto no setor cultural
Especialistas em economia da cultura apontam que o valor de R$ 75 milhões é suficiente para financiar dezenas de produções independentes ou apoiar circuitos de exibição em regiões periféricas. A ausência de recursos públicos, embora legal, levanta debates sobre a concentração de investimentos em obras de cunho político-partidário. Para o crítico de cinema Luís Carlos Oliveira, da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), “o filme pode até ter méritos artísticos, mas o custo desproporcional e a falta de transparência reforçam a percepção de que o audiovisual brasileiro está sendo usado como palco de disputas ideológicas”.
Enquanto isso, a Go Up Entertainment mantém silêncio sobre os próximos passos, e a expectativa é de que a decisão sobre o adiamento seja anunciada nos próximos dias. O caso já mobiliza parlamentares da base governista, que prometem fiscalizar a origem dos recursos, e da oposição, que defende a liberdade de produção. O filme Dark Horse segue, assim, como um símbolo das tensões que marcam o atual momento político brasileiro.
Fonte: ver noticia original

