A embaixadora da União Europeia em Brasília, a alemã Marian Schuegraf, afirmou em entrevista à Folha nesta terça-feira (16) que, apesar da entrada em vigor do acordo entre o bloco europeu e o Mercosul, não é possível conceder tratamento diferenciado ao Brasil nas novas restrições à importação de aço, soja e carne anunciadas recentemente pela UE. A declaração ocorre em meio a crescentes atritos comerciais entre os dois blocos, que aprofundam o debate sobre reciprocidade e sustentabilidade nas relações bilaterais.
As medidas, que incluem cotas reduzidas e exigências ambientais mais rígidas, foram justificadas pela Comissão Europeia como parte da estratégia do Green Deal europeu, que visa reduzir a pegada de carbono de produtos importados. Schuegraf destacou que as regras são aplicadas de forma igualitária a todos os parceiros comerciais, sem exceções, e que o Brasil não pode esperar um regime especial, mesmo sendo signatário do recente acordo comercial com o Mercosul. A posição da UE contrasta com as expectativas do governo brasileiro, que esperava maior flexibilidade após anos de negociação do pacto.
Impactos nos setores produtivos brasileiros
As restrições atingem diretamente três dos principais produtos de exportação do Brasil: o aço, a soja e a carne bovina. No caso do aço, a UE impôs cotas máximas de importação, limitando o volume que o Brasil pode enviar ao bloco sem pagar tarifas adicionais. Para a soja, as novas exigências de rastreabilidade e certificação de desmatamento zero devem elevar os custos logísticos e burocráticos para os produtores brasileiros. Já a carne bovina enfrenta barreiras sanitárias e ambientais mais severas, com inspeções ampliadas e critérios de bem-estar animal mais rigorosos.
Dados do Ministério da Agricultura indicam que o Brasil exportou, em 2025, cerca de US$ 12 bilhões em aço, US$ 30 bilhões em soja e US$ 8 bilhões em carne para a UE. Com as novas regras, estima-se uma redução de até 15% no volume de embarques, o que pode gerar perdas significativas para a balança comercial brasileira e pressionar o governo a buscar novos mercados, como a China e o Sudeste Asiático.
Panorama político e reações no Brasil
A posição da UE ocorre em um momento de tensão diplomática entre o bloco e o governo brasileiro, que tem criticado publicamente as medidas como protecionistas e unilaterais. O Ministro das Relações Exteriores já havia sinalizado que o Brasil poderia recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) caso as restrições fossem consideradas discriminatórias. Parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária também manifestaram insatisfação, defendendo a adoção de contramedidas, como a suspensão de compras de produtos europeus.
Especialistas apontam que o impasse reflete a dificuldade de conciliar as ambições ambientais da UE com as necessidades econômicas de países em desenvolvimento como o Brasil. Enquanto a Europa busca acelerar sua transição verde, o Brasil depende das exportações de commodities para sustentar seu crescimento e gerar empregos. A falta de um tratamento diferenciado pode enfraquecer a confiança no acordo UE-Mercosul, que já enfrentava resistências internas em ambos os lados.
A embaixadora Schuegraf reiterou que a UE está aberta ao diálogo técnico para esclarecer as regras e minimizar impactos, mas descartou qualquer revisão das medidas. Enquanto isso, o governo brasileiro avalia estratégias para mitigar os efeitos, incluindo a diversificação de parceiros comerciais e o fortalecimento de acordos com outros blocos, como a Aliança do Pacífico e a África. O cenário reforça a necessidade de uma política externa mais assertiva e de uma agenda de desenvolvimento sustentável que dialogue com as exigências globais.
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