Pela primeira vez na história da medicina, um transplante de pulmão foi realizado entre duas pessoas vivendo com HIV, nos Estados Unidos. O procedimento inédito ocorreu no Montefiore Medical Center, em Nova York, e representa um avanço significativo para pacientes soropositivos que necessitam de transplantes, tradicionalmente excluídos das listas de doadores devido ao risco de infecção cruzada. A cirurgia, que utilizou um pulmão de uma doadora falecida também portadora do vírus, foi bem-sucedida e abre caminho para a revisão de protocolos médicos e políticas de saúde pública em todo o mundo.
O paciente receptor, cujo nome não foi divulgado, é um homem de meia-idade que sofria de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e estava há mais de um ano na fila de espera por um órgão compatível. A doadora, uma mulher de 30 anos, teve a morte encefálica confirmada após um acidente vascular cerebral. Ambos os pacientes estavam sob tratamento antirretroviral estável, com carga viral indetectável, condição essencial para viabilizar o procedimento. A equipe médica, liderada pelo cirurgião torácico Dr. Joshua Sonett e pelo infectologista Dr. David Fidock, monitorou o receptor por 30 dias após a cirurgia, constatando a função pulmonar normal e ausência de rejeição aguda ou complicações infecciosas.
Mudança de paradigma na alocação de órgãos
Historicamente, pessoas com HIV eram excluídas das listas de doadores de órgãos sólidos, exceto em casos de transplante entre soropositivos para rins e fígados, já realizados com sucesso em países como África do Sul e Estados Unidos. O transplante de pulmão, porém, era considerado mais arriscado devido à alta vascularização do órgão e ao maior potencial de transmissão viral. O sucesso do procedimento no Montefiore Medical Center desafia essa premissa e pode reduzir significativamente o tempo de espera na fila de transplantes, que atualmente ultrapassa 3 anos para pulmões nos EUA. Segundo dados da United Network for Organ Sharing (UNOS), cerca de 1.400 pessoas aguardam por um pulmão no país, e a taxa de mortalidade na fila chega a 20% ao ano.
O caso também levanta questões éticas e legais sobre a utilização de órgãos de doadores com HIV. Até 2013, a lei federal americana proibia o uso de órgãos de pessoas soropositivas, mesmo para receptores com o vírus. A mudança veio com o HIV Organ Policy Equity (HOPE) Act, sancionado pelo então presidente Barack Obama, que permitiu pesquisas clínicas controladas. Desde então, mais de 100 transplantes renais e hepáticos entre pessoas com HIV foram realizados, mas o pulmão permanecia como o último grande desafio. O procedimento agora documentado no New England Journal of Medicine deve acelerar a aprovação de protocolos semelhantes em outros centros médicos.
Impacto global e perspectivas para o Brasil
No Brasil, o transplante de órgãos entre pessoas com HIV ainda é restrito a rins e fígados, autorizado pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT) desde 2016, após a publicação da Portaria nº 2.600/2016 do Ministério da Saúde. A experiência americana pode influenciar a revisão das diretrizes nacionais, especialmente considerando que o país possui a maior fila de transplantes da América Latina, com mais de 40 mil pessoas aguardando por um órgão, das quais cerca de 2.000 necessitam de pulmão. Dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) indicam que, em 2023, apenas 1.200 transplantes de pulmão foram realizados no país, com uma taxa de mortalidade na fila de 30%.
Especialistas em saúde pública apontam que a medida pode beneficiar diretamente os cerca de 900 mil brasileiros que vivem com HIV, muitos dos quais desenvolvem doenças pulmonares crônicas devido ao tabagismo, infecções oportunistas ou efeitos colaterais de medicamentos. O infectologista Dr. Ricardo Vasconcelos, da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o procedimento “representa um divisor de águas na medicina transplantadora, pois elimina o estigma de que pacientes com HIV são ‘órgãos de segunda categoria’”. No entanto, ressalta a necessidade de estudos de longo prazo para avaliar a sobrevida dos enxertos e o risco de coinfecções.
A realização do transplante também reacende o debate sobre a escassez de órgãos e a necessidade de ampliar o pool de doadores. Nos EUA, a Health Resources and Services Administration (HRSA) estima que a inclusão de doadores com HIV poderia aumentar em até 10% o número de pulmões disponíveis para transplante. No Brasil, onde a taxa de doadores efetivos é de 16 por milhão de habitantes (contra 30 nos EUA), a medida poderia salvar centenas de vidas anualmente. A Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) já sinalizou interesse em discutir a ampliação dos critérios de doação com o Ministério da Saúde.
O caso do Montefiore Medical Center também destaca a importância da terapia antirretroviral moderna, que permite que pessoas com HIV vivam com saúde por décadas, reduzindo a carga viral a níveis indetectáveis. O sucesso do transplante pulmonar depende diretamente da adesão ao tratamento e do controle da replicação viral, o que exige um acompanhamento multidisciplinar rigoroso. Para o Dr. Sonett, “este é o começo de uma nova era, onde o HIV não é mais uma barreira absoluta para a doação de órgãos, mas sim uma condição clínica que pode ser gerenciada com segurança”.
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