Em clima de luto e clamor por justiça, vítima de feminicídio é sepultada em Maceió; agressor confesso segue preso

Em uma cerimônia marcada por forte comoção e gritos de “justiça”, o corpo de Grace Daiane dos Santos, de 33 anos, foi sepultado na tarde desta quinta-feira (26) em um cemitério de Maceió. A vítima morreu após ser brutalmente agredida pelo companheiro, José Carlos da Silva, de 38 anos, no município de Jequiá da Praia, a 60 km da capital alagoana. O agressor confessou o crime e permanece preso preventivamente, enquanto a Polícia Civil investiga se houve omissão de autoridades locais diante de denúncias anteriores de violência doméstica.

O enterro, realizado sob chuva fina, reuniu cerca de 200 pessoas, entre familiares, vizinhos e ativistas de direitos das mulheres. Amigas da vítima relataram que Grace já havia registrado queixas contra o companheiro em 2024, mas as medidas protetivas não foram cumpridas. “Ela pedia socorro, mas ninguém ouviu. Hoje estamos aqui enterrando uma mulher que poderia estar viva”, disse a irmã da vítima, Maria Aparecida dos Santos, em discurso emocionado. O caso reacende o debate sobre a eficácia da Lei Maria da Penha e a lentidão do sistema judiciário em Alagoas, estado que lidera o ranking nacional de feminicídios per capita, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Panorama político e social

O crime ocorre em meio a um contexto de escalada da violência contra a mulher no Brasil. Dados do Ministério da Justiça indicam que, em 2025, os feminicídios cresceram 12% em relação ao ano anterior, com maior concentração nas regiões Nordeste e Norte. Em Alagoas, a taxa de feminicídios é de 2,3 por 100 mil mulheres, quase o dobro da média nacional. Organizações como o Instituto Maria da Penha e a Rede de Mulheres Negras de Alagoas cobram do governo estadual a implementação de casas-abrigo e a capacitação de policiais para atendimento a vítimas. O governador Paulo Dantas (MDB) anunciou, na semana passada, a criação de um comitê de enfrentamento à violência doméstica, mas sem previsão de orçamento específico.

Ao mesmo tempo, a campanha presidencial de 2026 já começa a pautar o tema. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem defendido a ampliação de políticas de proteção, enquanto a oposição, liderada por Jair Bolsonaro (PL), critica a “ineficiência do Estado”. Em Maceió, a prefeitura anunciou a criação de um centro de referência para mulheres em situação de violência, mas a unidade ainda não tem data para funcionar. O caso de Grace expõe a distância entre as promessas e a realidade: em Jequiá da Praia, não há delegacia especializada nem abrigo para vítimas.

A Polícia Civil informou que o inquérito será concluído em 30 dias e que novas testemunhas serão ouvidas. O agressor, que trabalhava como pedreiro, não tinha passagens anteriores por violência, mas vizinhos afirmam que as agressões eram frequentes. “Ela vivia com medo, mas não tinha para onde ir. A família dela é pobre e dependia dele financeiramente”, contou a amiga Luciana Ferreira. O enterro foi encerrado com a leitura de um poema e o lançamento de flores brancas sobre o caixão, enquanto mulheres vestidas de preto entoavam: “Nem uma a menos, nem uma a mais”.

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