Justiça com as próprias mãos: três suspeitos são presos por tortura a homem amarrado a poste com placa de ‘ladrão’

Três moradores foram presos na última quinta-feira (26) após um homem ser encontrado amarrado a um poste, com uma placa pendurada no peito onde se lia a palavra ‘ladrão’, em um bairro da periferia de Frances. O caso, que chocou a comunidade local, é investigado pela Polícia Civil como tortura, e a vítima, que não prestou depoimento até o momento, é procurada por suspeita de envolvimento em furtos na região. A ação levanta novamente o debate sobre a escalada da violência e a fragilidade do Estado de Direito em áreas onde a sensação de impunidade alimenta práticas de justiçamento.

De acordo com o boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Polícia de Frances, os agentes foram acionados por volta das 22h por moradores que ouviram gritos e encontraram o homem, ainda não identificado oficialmente, amarrado a um poste de concreto na Rua das Palmeiras. Ele apresentava escoriações pelo corpo e sinais de agressão física. Uma placa de papelão, com a inscrição ‘ladrão’ escrita à mão, estava presa a seu pescoço com barbante. Os três suspeitos, todos vizinhos da vítima, foram detidos em flagrante e encaminhados à carceragem da cidade, onde aguardam audiência de custódia.

Investigação e contexto de violência

A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar o crime de tortura, previsto no artigo 1º da Lei 9.455/97, que pode resultar em pena de 2 a 8 anos de reclusão. O delegado responsável pelo caso, Carlos Mendes, afirmou em entrevista coletiva que a vítima foi liberada após receber atendimento médico, mas não compareceu à delegacia para prestar depoimento. ‘Estamos tentando localizá-la para ouvir sua versão, mas há indícios de que ela pode estar envolvida em furtos recentes na vizinhança, o que não justifica, em hipótese alguma, a ação dos suspeitos’, declarou Mendes. A polícia também investiga se outros moradores participaram ou incentivaram o ato.

O caso reacende o debate sobre a segurança pública e a confiança nas instituições. Em todo o Brasil, episódios de justiçamento têm se tornado recorrentes, especialmente em comunidades onde a demora na resposta policial e a sensação de impunidade levam cidadãos a tomar medidas extremas. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2023, foram registrados mais de 1.200 casos de linchamento ou tentativas de linchamento no país, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Especialistas apontam que a falta de políticas públicas eficazes de prevenção e repressão ao crime, aliada à descrença no sistema judiciário, cria um ambiente propício para que a população recorra à violência como forma de ‘justiça’.

Os três presos, cujos nomes não foram divulgados pela polícia, responderão por tortura e, dependendo das investigações, poderão ser indiciados também por lesão corporal e constrangimento ilegal. A vítima, por sua vez, continua foragida e é considerada suspeita de furtos, mas a polícia ressalta que qualquer crime deve ser apurado dentro da lei. ‘Não podemos tolerar que cidadãos assumam o papel de juízes e algozes. O Estado de Direito precisa prevalecer’, concluiu o delegado Carlos Mendes.

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