Centenária Cia. City, que criou bairros em São Paulo, anuncia plano de ‘retrofit de tudo’ e busca resgatar história perdida

A centenária Cia. City, fundada em 1911 e responsável pela criação de bairros emblemáticos de São Paulo como Jardim América, Alto de Pinheiros e Pacaembu, anunciou um ambicioso plano de modernização de seu patrimônio imobiliário. Em entrevista, o CEO Leonardo Paranaguá, de 50 anos, revelou que a empresa pretende realizar um ‘retrofit de tudo’, abrangendo desde edifícios comerciais até áreas residenciais. Paralelamente, a companhia busca preencher um hiato em sua própria história: em Ibiúna-MG, estão armazenadas 3.000 caixas de arquivos históricos, que Paranaguá escolhe aleatoriamente para descobrir o que contêm, numa tentativa de recuperar registros perdidos ao longo de mais de um século de atuação.

O plano de retrofit, segundo o executivo, não se limita a reformas estéticas. A Cia. City pretende atualizar sistemas elétricos, hidráulicos e de sustentabilidade em seus imóveis, muitos dos quais construídos entre as décadas de 1920 e 1950. A iniciativa visa atender às novas demandas do mercado imobiliário paulistano, que exige eficiência energética e espaços adaptáveis ao home office e ao comércio local. A empresa, que já foi uma das maiores loteadoras do país, hoje possui um portfólio diversificado, incluindo galpões logísticos e terrenos em regiões valorizadas da capital.

Resgate histórico e desafios do acervo

O trabalho de resgate histórico é um dos pontos mais sensíveis do projeto. As 3.000 caixas em Ibiúna-MG contêm documentos, plantas, fotografias e correspondências que datam desde a fundação da companhia. Leonardo Paranaguá afirma que o material está desorganizado e que, muitas vezes, ele mesmo abre as caixas aleatoriamente para tentar entender o que foi preservado. ‘Há um hiato na história da empresa que eu desejo recuperar’, disse o CEO, referindo-se a períodos como a crise de 1929 e a ditadura militar, quando registros podem ter sido perdidos ou destruídos. A expectativa é que, com a digitalização e catalogação, a Cia. City possa não apenas preservar sua memória, mas também usar esses dados para embasar decisões de preservação de imóveis tombados.

O panorama político e econômico de São Paulo influencia diretamente os planos da empresa. A prefeitura da capital, sob gestão de Ricardo Nunes (MDB), tem incentivado projetos de retrofit como forma de revitalizar áreas centrais e reduzir o déficit habitacional. No entanto, a Cia. City enfrenta entraves burocráticos, como a lentidão nos processos de aprovação de reformas em imóveis tombados pelo Condephaat e pelo IPHAN. Além disso, a alta dos juros e a inflação no setor de construção civil têm pressionado os custos, o que pode atrasar o cronograma do ‘retrofit de tudo’.

Outro desafio é a concorrência com incorporadoras modernas, que atuam com maior agilidade e capital de giro. A Cia. City, porém, aposta em seu diferencial histórico: muitos de seus bairros são considerados áreas nobres e com forte apelo cultural. O CEO destaca que a empresa não pretende vender seus ativos, mas sim valorizá-los por meio de parcerias com arquitetos e urbanistas. ‘Queremos que a Cia. City continue sendo referência em planejamento urbano, como foi no passado’, afirmou Paranaguá.

O resgate do acervo também tem implicações para a memória urbana de São Paulo. Historiadores e urbanistas consultados pela reportagem apontam que os documentos podem revelar detalhes sobre a formação de bairros como Jardim América, projetado pelo urbanista inglês Barry Parker, e Alto de Pinheiros, que seguiu o modelo de cidades-jardim. A Cia. City planeja, em parceria com universidades, criar um centro de memória aberto ao público, o que poderia impulsionar o turismo cultural na cidade.

Apesar do otimismo, o plano ainda está em fase inicial. A empresa não divulgou prazos ou valores investidos no retrofit, mas Leonardo Paranaguá adiantou que a prioridade são os imóveis localizados na Avenida Paulista e no Centro Histórico. Enquanto isso, as caixas em Ibiúna-MG continuam a ser abertas, uma a uma, na esperança de que cada documento ajude a contar a história de uma das empresas mais emblemáticas do desenvolvimento urbano paulistano.

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