Na noite da última quarta-feira (26), um homem foi preso em flagrante em Palmeira dos Índios, no Agreste de Alagoas, após tentar estrangular a própria companheira e ameaçá-la de morte. A vítima, cujo nome não foi divulgado para preservar sua identidade, foi salva pela intervenção de familiares que ouviram os gritos e conseguiram conter o agressor até a chegada da Polícia Militar. O caso, registrado no 10º Distrito Policial, expõe mais um episódio de violência doméstica em um estado que lidera taxas alarmantes de feminicídio no Nordeste.
De acordo com o relato da vítima às autoridades, o relacionamento já era marcado por um histórico de agressões físicas e psicológicas. Ela afirmou que o companheiro, identificado como José Carlos da Silva, de 34 anos, a atacou após uma discussão banal, enforcando-a com as próprias mãos e dizendo que “ia matá-la”. Apenas a chegada de parentes, que arrombaram a porta da residência, impediu que o crime se consumasse. A Polícia Militar foi acionada e encontrou o suspeito ainda no local, sendo preso em flagrante por tentativa de feminicídio e ameaça.
Cenário de violência em Alagoas
O caso de Palmeira dos Índios não é isolado. Dados da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas apontam que, apenas nos primeiros seis meses de 2025, foram registradas mais de 2.300 ocorrências de violência doméstica em todo o estado, um aumento de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. A situação é ainda mais grave no interior, onde a falta de delegacias especializadas e de abrigos para vítimas dificulta a denúncia e a proteção das mulheres. Em Rio Largo, por exemplo, um caso recente de agressão reiterada levou à prisão de um homem que já respondia por lesão corporal, mas continuava a ameaçar a ex-companheira.
Especialistas apontam que a subnotificação e a revitimização são barreiras constantes. A Delegacia da Mulher de Palmeira dos Índios informou que a vítima já havia registrado boletins de ocorrência anteriores, mas o agressor era liberado após pagamento de fiança. A prisão em flagrante desta vez, no entanto, pode representar um avanço, já que a Justiça deverá analisar a conversão para prisão preventiva. A defensoria pública estadual afirmou que acompanhará o caso para garantir a aplicação da Lei Maria da Penha.
Panorama político e social
O episódio reacende o debate sobre a efetividade das políticas públicas de combate à violência contra a mulher em Alagoas. O governo estadual, sob a gestão do governador Paulo Dantas (MDB), anunciou em maio a ampliação do programa “Ronda Maria da Penha”, que realiza monitoramento de agressores com tornozeleiras eletrônicas. No entanto, críticos apontam que a cobertura ainda é insuficiente: apenas 300 dispositivos estão em uso, para uma demanda estimada em mais de 2 mil casos. A Assembleia Legislativa de Alagoas discute um projeto de lei que prevê a criação de varas especializadas em feminicídio, mas a tramitação é lenta.
Organizações de direitos humanos, como o Instituto Maria da Penha, destacam que a prisão de agressores não resolve o problema estrutural. “É preciso investir em educação, em redes de apoio e em abrigos. Cada caso como o de Palmeira dos Índios é um alerta de que o sistema falhou antes”, afirmou a coordenadora do instituto, Ana Paula Santos. Enquanto isso, a vítima segue sob proteção de familiares, aguardando medidas protetivas que, segundo a polícia, devem ser expedidas nas próximas horas.
O agressor foi encaminhado ao sistema prisional e aguarda audiência de custódia. A Polícia Civil investiga se ele tem outros registros criminais. O caso, que poderia ter terminado em tragédia, expõe a urgência de ações coordenadas entre Judiciário, Executivo e sociedade civil para frear o que especialistas chamam de “epidemia silenciosa” de violência doméstica em Alagoas.
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