Feriado nacional no Paraguai após classificação histórica na Copa: entenda o contexto

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, decretou feriado nacional para esta terça-feira (30) após a classificação histórica da seleção paraguaia às oitavas de final da Copa do Mundo, com a eliminação da Alemanha. A decisão, anunciada na noite de segunda-feira (29), gerou reações mistas entre a população e analistas políticos, que apontam para um cenário de instabilidade econômica e social no país.

A vitória do Paraguai sobre a Alemanha, por 2 a 1, em partida realizada no Estádio Centenário, em Montevidéu, foi recebida com euforia nas ruas de Assunção e outras cidades. A seleção paraguaia, que não avançava para as oitavas desde 2010, garantiu a vaga com uma campanha sólida na fase de grupos, liderada pelo técnico Guillermo Barros Schelotto. O gol da vitória foi marcado pelo atacante Miguel Almirón, aos 43 minutos do segundo tempo, após assistência de Julio Enciso.

O decreto de feriado, assinado por Santiago Peña, suspende atividades administrativas e comerciais não essenciais, exceto serviços de saúde, segurança e abastecimento. A medida, no entanto, ocorre em um momento de crise econômica no Paraguai, com inflação anual de 8,5% e desemprego atingindo 7,2% da população economicamente ativa, segundo dados do Banco Central do Paraguai. Especialistas apontam que a folga pode gerar perdas de até 0,3% do PIB diário, o que equivale a aproximadamente US$ 15 milhões.

Contexto político e econômico

A decisão de Santiago Peña ocorre em meio a tensões políticas no país. O presidente, do Partido Colorado, enfrenta críticas da oposição por priorizar eventos esportivos em detrimento de pautas urgentes, como a reforma tributária e o combate à pobreza, que afeta 26% da população. A oposição, liderada pelo senador Efraín Alegre, do Partido Liberal Radical Autêntico, classificou o feriado como “populismo barato” e “desrespeito ao trabalhador”.

Por outro lado, a medida foi elogiada por setores do turismo e do comércio, que esperam aumento no consumo em bares, restaurantes e lojas de artigos esportivos. A Confederação Paraguaia de Futebol, presidida por Robert Harrison, também celebrou a decisão, destacando o “impacto positivo na moral nacional”.

O feriado de terça-feira (30) coincide com a realização de outras partidas das oitavas de final, incluindo o confronto entre Brasil e Uruguai, que ocorrerá no mesmo dia. A seleção paraguaia enfrentará o vencedor do grupo F, em data ainda a ser definida pela FIFA.

Reações internacionais

A eliminação da Alemanha, tetracampeã mundial, repercutiu internacionalmente. O técnico alemão, Hansi Flick, anunciou sua saída do cargo após a derrota, enquanto a imprensa europeia destacou a “surpresa” e a “festa paraguaia”. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, parabenizou a seleção paraguaia pela conquista, mas não comentou o feriado decretado por Santiago Peña.

No Paraguai, a decisão presidencial reacendeu o debate sobre o uso de feriados como ferramenta política. Em 2023, o então presidente Mario Abdo Benítez também decretou feriado após a classificação da seleção para a Copa América, medida que foi criticada por economistas e pela oposição. A prática, no entanto, é comum em países sul-americanos, como Brasil e Argentina, que já adotaram folgas similares em momentos de conquistas esportivas.

Para o cientista político Carlos Martínez, da Universidade Nacional de Assunção, a decisão de Santiago Peña reflete uma estratégia de curto prazo para desviar a atenção de problemas estruturais. “O feriado é uma válvula de escape, mas não resolve as questões de fundo, como a corrupção e a desigualdade. O Paraguai precisa de políticas sérias, não de pão e circo”, afirmou.

A população, por sua vez, se dividiu entre os que celebram a classificação e os que criticam a perda de um dia útil. Em pesquisa realizada pelo instituto Atlas Intel, 52% dos paraguaios aprovaram o feriado, enquanto 38% o consideraram desnecessário. Os 10% restantes não opinaram.

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