A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (26), a segunda fase da Operação Anáfora, com o objetivo de aprofundar as investigações sobre um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo recursos públicos desviados da área da saúde no estado do Rio de Janeiro. Ao todo, estão sendo cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a suspeitos de integrar a organização criminosa que teria desviado milhões de reais destinados a hospitais, postos de saúde e programas assistenciais. A ação ocorre em meio a um cenário de crescentes escândalos de corrupção no setor, que já levaram à abertura de dezenas de inquéritos e à prisão de agentes públicos e privados nos últimos meses.
As investigações, conduzidas pela PF em parceria com o Ministério Público Federal e a Controladoria-Geral da União, apontam que o esquema funcionava por meio de contratos superfaturados e fraudes em licitações, com recursos sendo desviados para contas de empresas de fachada e posteriormente ocultados em paraísos fiscais ou investimentos imobiliários. Os mandados expedidos pela Justiça Federal do Rio de Janeiro incluem buscas em residências, escritórios e sedes de empresas suspeitas, localizadas em bairros nobres da capital fluminense e em municípios da região metropolitana. A operação também conta com o apoio da Receita Federal, que analisa movimentações financeiras atípicas que somam mais de R$ 150 milhões nos últimos cinco anos.
O desvio de recursos da saúde pública no Rio de Janeiro não é um caso isolado. Nos últimos anos, o estado tem sido palco de sucessivas operações policiais que revelaram a atuação de organizações criminosas especializadas em drenar verbas destinadas a hospitais, UPAs e programas de distribuição de medicamentos. Em 2024, a Operação Red Fox, também da PF e do MPF, bloqueou quase R$ 500 milhões em bens de uma facção que atuava em esquemas internacionais de lavagem de dinheiro, com ramificações no setor de saúde. Já a Polícia Civil de Alagoas cumpriu 51 mandados em uma operação de combate ao crime organizado que também envolvia fraudes em contratos públicos de saúde. Mais recentemente, a Polícia Civil de São Paulo indiciou a influenciadora Deolane Bezerra e o líder do PCC, Marcola, por lavagem de dinheiro ligada ao tráfico, em um caso que expôs a capilaridade do crime organizado no sistema financeiro nacional.
Impacto no sistema de saúde e na população
O desvio de recursos públicos da saúde tem consequências diretas na qualidade dos serviços oferecidos à população. Hospitais públicos do Rio de Janeiro enfrentam falta de insumos básicos, como medicamentos e materiais cirúrgicos, além de atrasos no pagamento de profissionais e fornecedores. Estima-se que, somente nos últimos três anos, mais de R$ 2 bilhões tenham sido desviados ou mal aplicados na área da saúde fluminense, segundo relatórios do Tribunal de Contas do Estado. A segunda fase da Operação Anáfora busca não apenas responsabilizar os envolvidos, mas também recuperar parte dos valores desviados, que poderiam ser reinvestidos em leitos de UTI, campanhas de vacinação e programas de atenção básica.
Os suspeitos, que incluem empresários, lobistas e ex-funcionários públicos, poderão responder por crimes de peculato, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As penas, se somadas, podem ultrapassar 30 anos de prisão. A PF informou que as investigações continuarão nos próximos meses, com novas fases previstas para desmantelar completamente a rede de corrupção. A operação desta quinta-feira é mais um capítulo na luta contra a impunidade no setor de saúde pública, que há décadas sofre com a sangria de recursos essenciais para a vida dos cidadãos.
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