Aleitamento materno prolonga benefícios à microbiota intestinal mesmo após o desmame, revela estudo

O aleitamento materno, reconhecido por seus benefícios imediatos à saúde infantil, agora ganha um novo e importante capítulo: um estudo científico revela que o leite materno contribui para a formação de uma microbiota intestinal saudável mesmo após o desmame, prolongando seus efeitos positivos. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e publicada na revista Nature Communications, analisou amostras fecais de 200 crianças ao longo de dois anos, demonstrando que os oligossacarídeos do leite humano (HMOs) – açúcares complexos não digeríveis – atuam como prebióticos, estimulando o crescimento de bactérias benéficas como Bifidobacterium e Lactobacillus. O estudo, que envolveu parceria com o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), constatou que as crianças amamentadas por pelo menos seis meses apresentaram, aos 12 meses de idade, uma diversidade microbiana 30% maior em comparação com aquelas que não receberam leite materno. Essa diferença persistiu até os 24 meses, mesmo após o desmame, indicando que os HMOs modulam o microbioma intestinal de forma duradoura.

O impacto dessa descoberta vai além da nutrição infantil. A microbiota intestinal saudável está associada à redução do risco de doenças como obesidade, diabetes tipo 1, alergias e infecções gastrointestinais. Dra. Maria do Carmo Leal, coordenadora do estudo e pesquisadora do Departamento de Epidemiologia da USP, destacou que “os HMOs são como um fertilizante seletivo para as bactérias boas, criando um ecossistema intestinal que favorece a saúde metabólica e imunológica da criança a longo prazo”. A pesquisa também revelou que a composição dos HMOs varia entre as mães, influenciada por fatores genéticos e ambientais, o que pode explicar diferenças individuais na resposta ao aleitamento.

Panorama político e social do aleitamento no Brasil

O estudo chega em um momento crucial para as políticas públicas de saúde no Brasil. Dados do Ministério da Saúde indicam que a taxa de aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade é de apenas 45,7%, abaixo da meta de 50% estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A pesquisa reforça a necessidade de ampliar o acesso a bancos de leite humano, como os gerenciados pela Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH), que atende cerca de 170 mil recém-nascidos por ano. Dr. Paulo Buss, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afirmou que “investir em aleitamento materno é uma estratégia de saúde pública de baixo custo e alto impacto, que reduz internações hospitalares e gastos com tratamentos de doenças crônicas”. No entanto, desafios persistem: a falta de licença-maternidade remunerada adequada para trabalhadoras informais, que representam 40% das mães brasileiras, e a pressão da indústria de fórmulas infantis, que gasta R$ 1,2 bilhão por ano em marketing no país, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O debate sobre o aleitamento também ganhou contornos políticos recentes. Em 2023, o Congresso Nacional aprovou a Lei 14.598/2023, que amplia a licença-maternidade para 180 dias para servidoras públicas, mas a medida ainda não foi estendida a todas as trabalhadoras do setor privado. Organizações como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) têm pressionado por políticas que incentivem a amamentação, como a criação de salas de apoio em empresas e a regulamentação da publicidade de substitutos do leite materno. Dra. Ana Cristina de Oliveira, presidente da Comissão de Aleitamento Materno da SBP, alertou que “a indústria de fórmulas infantis frequentemente usa estratégias de marketing agressivas, especialmente em comunidades de baixa renda, minando os esforços de saúde pública”. O estudo da USP, ao demonstrar benefícios duradouros do leite materno, fortalece o argumento de que políticas de apoio à amamentação são investimentos essenciais para a saúde da população.

Em termos de impacto econômico, a pesquisa sugere que o aleitamento materno pode reduzir os custos do sistema de saúde. Um estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) estimou que o aumento da amamentação exclusiva até os seis meses poderia economizar R$ 2,3 bilhões por ano em tratamentos de diarreia, pneumonia e otite média no Brasil. Dr. Cesar Victora, epidemiologista da UFPel e um dos autores do estudo, comentou que “os resultados reforçam a necessidade de políticas integradas que combinem educação, suporte social e regulação do mercado”. O novo estudo, portanto, não apenas avança o conhecimento científico, mas também oferece subsídios para que gestores públicos e profissionais de saúde priorizem o aleitamento materno como uma ferramenta de promoção da saúde e redução de desigualdades.

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