Crise no bolsonarismo: racha entre Michelle e Flávio expõe disputa pelo eleitorado feminino e ameaça campanha

O vídeo publicado por Michelle Bolsonaro na quarta-feira (24) passada não apenas expôs o racha na família entre ela e os filhos de Jair Bolsonaro, mas também reacendeu o debate sobre o papel das mulheres no bolsonarismo. Na postagem, a ex-primeira-dama reivindicou mais espaço para candidaturas femininas dentro do PL — a mesma Michelle que, dois anos atrás, defendeu que as mulheres devem ser submissas aos seus maridos. A repercussão imediata nas redes sociais, com críticas de aliados de Flávio Bolsonaro à ex-primeira-dama, escancarou uma fissura que pode custar caro à pré-campanha do filho do ex-presidente à Presidência da República.

O caso mais emblemático foi o do influenciador Paulo Figueiredo, que, no dia seguinte à publicação de Michelle, afirmou que “mulheres votam estatisticamente mal”, especialmente as solteiras. Apenas na quarta-feira (1º) o pré-candidato à Presidência veio a público para repudiar a fala de Figueiredo, com quem ele e seu irmão Eduardo Bolsonaro estiveram na Casa Branca para encontrar Donald Trump, em maio. A renúncia de Michelle à presidência do PL Mulher e a repercussão desses dois vídeos vêm gerando desgastes à campanha de Flávio Bolsonaro, em especial com o eleitorado feminino — são mais de 80 milhões de eleitoras no Brasil, cerca de 8 milhões a mais que homens.

Disputa interna e impacto eleitoral

O episódio, analisado pela jornalista Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da GloboNews e da rádio CBN, revela que a crise não é apenas familiar, mas estrutural dentro do bolsonarismo. Enquanto Michelle busca afirmar sua autonomia política e ampliar a participação feminina no partido, Flávio tenta conter os danos de uma fala que ecoa a misoginia histórica do movimento. A situação coloca em xeque a capacidade do grupo de dialogar com o maior contingente eleitoral do país: as mulheres.

Em meio à disputa, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entrou em campo para evitar o esvaziamento de um ato de Flávio após a briga com Michelle. Segundo a colunista Bela Megale, a intervenção de Valdemar busca conter a sangria e manter a unidade partidária. Já a colunista Ana Flor informou que Michelle foi convencida a não se desfiliar do PL e que sua candidatura ao Senado está mantida, segundo aliadas.

Panorama político geral

A crise expõe a fragilidade do bolsonarismo em lidar com pautas de gênero e representatividade, num momento em que a polarização com o governo Lula exige ampliação de bases. Enquanto Flávio adota o “modo cercadinho” na campanha, como aponta a colunista Andréia Sadi, Michelle traz à tona uma fenda que põe em xeque o futuro do movimento. O colunista Valdo Cruz avalia que a reconciliação entre Michelle e Flávio hoje é “impossível”, mas que Jair Bolsonaro pode atuar para garantir o apoio formal da ex-primeira-dama ao filho.

O podcast O Assunto, produzido por Luiz Felipe Silva, Sarah Resende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stéphanie Nascimento e Guilherme Gama, com apresentação de Natuza Nery, detalha como essa crise pode redefinir as estratégias eleitorais de 2026. Com mais de 168 milhões de downloads em todas as plataformas de áudio e 14,2 milhões de visualizações no YouTube, o programa reforça a importância de entender as dinâmicas internas do bolsonarismo para projetar o cenário político brasileiro.

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