Operação Sintonia de Gravata prende oito advogados e cumpre 27 mandados de busca contra facções no sistema prisional da Bahia

Uma operação conjunta do Ministério Público da Bahia (MP-BA), com o apoio da Polícia Civil e da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização, prendeu oito advogados e cumpriu 27 mandados de busca e apreensão contra 12 detentos na última sexta-feira (3), revelando um esquema em que defensores atuavam como o núcleo jurídico de facções criminosas no Presídio Estadual de Segurança Máxima de Serrinha, a 180 quilômetros de Salvador.

A investigação, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do MP-BA, aponta que os advogados utilizavam o parlatório da unidade prisional para transmitir ordens de chefes do tráfico que deveriam estar isolados. Câmeras instaladas com autorização judicial no parlatório registraram, entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, os profissionais recebendo e transmitindo instruções detalhadas sobre a compra e venda de armamentos, contabilidade do tráfico de drogas, além de planejamentos de homicídios e sequestros. Os bilhetes com as diretrizes das quadrilhas eram escondidos sob as roupas íntimas para burlar a fiscalização.

Registros em vídeo e ordens gravadas

As gravações capturadas nas cabines do parlatório revelaram a atuação individualizada de integrantes do grupo. O advogado Ícaro Cardoso Viana foi registrado recebendo instruções para recolher duas pistolas com a tia de um criminoso. Em outros trechos, ele faz anotações enquanto um preso dita os preços de substâncias ilícitas utilizando codinomes como “peixe” (cocaína), “óleo” (crack) e “chá” (maconha). As imagens mostram que a contabilidade da quadrilha ainda incluía o uso de cheques bancários.

A advogada Fernanda Oliveira Borges foi filmada retirando papéis com informações de dentro de suas vestes. Os vídeos mostram os detentos ditando balanços financeiros de entorpecentes acompanhados por ela, além de ordens de cobranças de dívidas sob ameaça e anotações ligadas a planejamentos de sequestros. Já Maria Mariana Batista de Oliveira, conforme as investigações, mantinha contato frequente com uma liderança do Comando Vermelho. Em um dos vídeos, ela chora com o preso ao informá-lo sobre a morte de um comparsa que atuava na Bahia e foi morto em confronto com a Polícia Militar no Rio de Janeiro durante a Operação Contenção — a mais letal do país, que deixou 122 mortos em outubro do ano passado. Depois, o detento afirma que pretende matar policiais, enquanto a advogada repassa dados sobre o paradeiro de uma carabina (chamada de “CT”) e frações.

“Nós estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crime”, afirmou o coordenador do Gaeco do MP-BA, Luiz Ferreira de Freitas Neto. “Denunciamos todos pelo pertencimento ao crime de organização criminosa. Diversos crimes são observados na conversa, desde tráfico de armas, tráfico de drogas, homicídios.”

O caso expõe a fragilidade do sistema prisional baiano, onde facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) disputam o controle do tráfico e expandem suas operações para o interior do estado. A operação, batizada de Sintonia de Gravata, ocorre em um contexto de aumento da violência no estado, que registrou 1.234 homicídios no primeiro semestre de 2026, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. A ação também levanta debates sobre a regulamentação das visitas de advogados a presídios de segurança máxima, com parlamentares da oposição cobrando medidas mais rígidas contra o uso indevido de prerrogativas profissionais.

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