Café, mel e pescado brasileiros tentam escapar de novas tarifas de Trump em audiência nos EUA

Pelo menos três setores do agronegócio brasileiro — café solúvel, mel e pescados — estão nos Estados Unidos nesta segunda-feira (6) para tentar reverter a nova rodada de tarifas proposta pelo presidente americano Donald Trump contra produtos brasileiros, em uma audiência pública realizada em Washington. As taxas, anunciadas em 1º de junho, preveem 25% sobre mercadorias brasileiras após investigação sobre desmatamento ilegal, pirataria e PIX, e 12,5% adicionais para 60 países por falhas no combate ao trabalho forçado. Embora os setores em questão não estejam entre os maiores volumes exportados pelo Brasil aos EUA, eles foram incluídos na ofensiva de Trump como parte de uma estratégia mais ampla de negociação.

Especialistas avaliam que, assim como no tarifaço de 2025, existe espaço para o Brasil negociar. Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), afirmou ao g1: “Sabemos que tudo isso faz parte de uma negociação mais ampla. Os Estados Unidos buscam um acordo em temas como minerais críticos, terras raras, PIX, big techs e outros assuntos.” A fala reflete o entendimento de que as tarifas são um instrumento de pressão política e econômica, e não uma medida isolada contra o agronegócio brasileiro.

Mel: dependência americana e ausência de substitutos

O mel brasileiro será defendido tanto por importadores americanos quanto por representantes da Associação Brasileira de Exportadores de Mel e da Lambertucci Trade Solution, empresa especializada em promover o produto no exterior. Segundo Joelma Lambertucci de Brito, diretora da companhia, a defesa destacará que o Brasil é o maior fornecedor de mel para os EUA: cerca de 83% do mel orgânico importado pelos americanos é brasileiro, e, considerando o mel convencional, 75% das importações têm origem no Brasil. A argumentação central é que os EUA não têm capacidade de substituir rapidamente o produto brasileiro sem provocar alta de preços e desabastecimento no mercado interno.

Café solúvel: impacto sobre preços e empregos

O setor de café solúvel, representado pela Abics, mira os efeitos das tarifas sobre os preços ao consumidor americano e sobre os empregos na cadeia produtiva. O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de café solúvel, e os EUA são um mercado estratégico. A defesa deve enfatizar que a taxação adicional encareceria o produto final, prejudicando consumidores e pequenos torrefadores americanos, além de afetar empregos no Brasil e nos EUA.

Pescados: sustentabilidade e segurança alimentar

O setor de pescados, por sua vez, aposta na sustentabilidade e na segurança alimentar como argumentos. Representantes de empresas e associações brasileiras devem mostrar que o pescado brasileiro atende a rigorosos padrões ambientais e sanitários, e que as tarifas podem comprometer o abastecimento de proteína de qualidade no mercado americano. A defesa também deve destacar que o Brasil é um fornecedor confiável e que a taxação pode abrir espaço para concorrentes com práticas menos sustentáveis.

Em ambos os casos — tarifas de 25% e 12,5% —, uma longa lista de exceções foi apresentada pelo governo Trump para evitar alta de preços no mercado americano. A carne bovina, um dos principais produtos exportados pelo Brasil aos EUA, entrou na lista de exceções, mesmo sendo alvo de críticas e investigações abertas pelo presidente americano, incluindo uma que apura se frigoríficos brasileiros que produzem nos EUA estão concentrando mercado e contribuindo para a disparada de preços da carne. O cenário revela a complexidade da negociação, que envolve interesses econômicos, políticos e setoriais de ambos os lados.

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