O Ministério Público de Roraima (MPRR) aponta um padrão de agressividade contra mulheres no comportamento do delegado da Polícia Civil Alexandre Henrique de Matos Lima, de 50 anos, alvo de quase 50 procedimentos disciplinares e criminais. A afirmação consta na ação em que o órgão pede o afastamento dele das funções, citando conduta reiterada de ofensas, intimidações e uso da posição funcional contra mulheres em diferentes contextos.
Na ação, o MPRR cita que alguns dos episódios que envolvem o delegado revelam uma conduta reiterada de ofensas, intimidações e uso da posição funcional contra mulheres em diferentes contextos. Segundo o MP, os casos não devem ser analisados como situações isoladas, mas como parte de um comportamento classificado como “misoginia institucionalizada”. A representação enumera situações sobre mulheres e cita uma agente da Polícia Civil, duas funcionárias de um condomínio e a própria esposa do delegado, que possui uma medida protetiva de urgência contra ele.
Contexto de abuso de poder e impunidade
O documento do MP, ao qual o g1 teve acesso, destaca que os fatos deixam de configurar episódios avulsos e passam a compor um quadro estrutural e reiterado de abuso de autoridade, misoginia institucionalizada e utilização do cargo e do aparato policial como instrumento de intimidação. O órgão ressalta que esse quadro remonta há mais de duas décadas de procedimentos disciplinares e criminais sistematicamente neutralizados pela prescrição e pela decadência, sem jamais resultar em responsabilização efetiva.
Um dos casos citados pelo MP ocorreu em julho de 2025, dentro da Delegacia-Geral da Polícia Civil. Conforme a ação, uma agente pediu que o delegado retirasse o carro particular de uma vaga destinada a viaturas. O documento afirma que ele questionou a abordagem da policial, que era recém-ingressa na instituição, e teria dito a outro servidor que iria “mandar prender essa vagabunda”. Essa reação, segundo o MP, demonstra uma tentativa de desqualificar a servidora em razão da posição que ela ocupava dentro da corporação.
Outro episódio ocorreu em junho de 2026, em um condomínio de Boa Vista. Segundo a ação, duas funcionárias orientaram o delegado sobre regras internas do prédio relacionadas a uma mudança. O MP afirma que ele ofendeu as trabalhadoras com termos como “vagabunda” e “filha da puta”, além de ter tomado o telefone de uma delas quando ela tentava acionar o síndico. O documento cita ainda que o delegado dizia possuir fuzis no veículo, o que teria causado medo nas funcionárias, e destaca que a postura dele teria mudado após o subsíndico se apresentar como general do Exército.
O g1 procurou o delegado sobre o assunto, mas não recebeu resposta até a última atualização da reportagem. O caso reforça o debate sobre a necessidade de mecanismos mais eficazes de responsabilização de agentes públicos, especialmente em situações de violência institucional contra mulheres, e levanta questionamentos sobre a cultura de impunidade em corporações policiais.
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