Um bebê que viveu há aproximadamente 6 mil anos, durante o período Neolítico, pode ter sido vítima de abuso físico, de acordo com um estudo publicado recentemente por pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha, e do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana. A análise dos ossos da criança, encontrados em um sítio arqueológico na região da atual Áustria, revelou fraturas cranianas e lesões que não seriam compatíveis com acidentes comuns da época, sugerindo um ato intencional de violência. O caso reacende o debate entre arqueólogos e antropólogos sobre a ocorrência de maus-tratos infantis em sociedades pré-históricas, desafiando a visão romantizada de que comunidades antigas viviam em harmonia.
Os restos mortais do bebê foram descobertos em uma sepultura datada de cerca de 4.000 a.C., no sítio de Kleinhadersdorf, na Baixa Áustria. A equipe de cientistas, liderada pela arqueóloga Katharina Fuchs, utilizou técnicas avançadas de microtomografia computadorizada para examinar os ossos em detalhe. As fraturas no crânio e em um dos braços apresentavam padrões de cicatrização que indicam que as lesões ocorreram em momentos diferentes, possivelmente ao longo de semanas ou meses, e não em um único evento traumático. “As características das fraturas são consistentes com impacto repetido, o que é difícil de explicar como acidente”, afirmou Fuchs em comunicado à imprensa. O estudo foi publicado na revista Scientific Reports.
Contexto arqueológico e social do Neolítico
O período Neolítico, também conhecido como Idade da Pedra Polida, marcou a transição de sociedades de caçadores-coletores para comunidades agrícolas sedentárias. Na região onde o bebê foi encontrado, as populações viviam em pequenas aldeias, cultivavam cereais e criavam animais domesticados. A descoberta de sepulturas individuais, como a de Kleinhadersdorf, é rara para a época, já que a maioria dos mortos era enterrada em cemitérios coletivos. O fato de a criança ter sido sepultada sozinha, com poucos ou nenhum objeto funerário, levanta questões sobre seu status social e as circunstâncias de sua morte.
Os pesquisadores descartaram a hipótese de que as lesões tenham sido causadas por animais ou por processos naturais pós-morte, como o deslocamento de terra. A análise também excluiu doenças ósseas que pudessem fragilizar os ossos. “Estamos diante de um caso que, se ocorresse hoje, seria classificado como abuso infantil”, explicou o coautor do estudo, Michaela Harbeck, curadora da coleção de antropologia do Museu de História Natural de Viena. A equipe evitou fazer afirmações categóricas, mas destacou que o padrão de fraturas é “altamente sugestivo” de violência intencional.
Impacto e repercussão no meio científico
A notícia gerou reações diversas entre especialistas. Para Penny Bickle, arqueóloga da Universidade de York, que não participou do estudo, a pesquisa é “um passo importante para entender a violência contra crianças no passado”. Ela ressalta, no entanto, que é preciso cautela ao interpretar evidências tão antigas. “Podemos estar projetando conceitos modernos de abuso em contextos culturais completamente diferentes”, alertou Bickle em entrevista ao portal Science News. Outros cientistas sugerem que as lesões poderiam ter sido causadas por práticas rituais ou por acidentes domésticos, como quedas de estruturas elevadas.
O caso também reacende o debate sobre a proteção infantil em sociedades antigas. Dados arqueológicos anteriores já haviam identificado casos de violência contra crianças em outras regiões, como no sítio de Çatalhöyük, na Turquia, onde esqueletos de crianças apresentavam marcas de cortes. No entanto, a raridade de sepulturas infantis individuais dificulta a coleta de amostras. O estudo de Kleinhadersdorf é um dos primeiros a usar tecnologia de ponta para analisar ossos tão frágeis e antigos.
Para a arqueóloga Katharina Fuchs, a descoberta não deve ser vista como uma condenação moral das sociedades neolíticas, mas como um alerta para a complexidade das relações humanas. “Violência e cuidado coexistiram no passado, assim como hoje”, afirmou. A equipe planeja agora comparar os dados com outros esqueletos infantis do mesmo período, encontrados em sítios na Alemanha e na República Tcheca, para verificar se o padrão se repete. O objetivo é construir um panorama mais amplo sobre a infância e a violência no Neolítico europeu.
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