Governo federal endurece regras e obriga bets a alertar que ‘apostar faz você perder dinheiro’

O governo federal, por meio do Ministério da Fazenda, publicou no Diário Oficial da União, neste sábado (11), uma portaria que estabelece novas regras rigorosas para a publicidade de apostas esportivas e jogos online, as chamadas bets. A partir do dia 17 de julho, todas as propagandas do setor deverão exibir, de forma clara e proporcional, uma de três frases de advertência obrigatórias: “Ministério da Fazenda adverte: Apostar pode causar dependência”, “Ministério da Fazenda adverte: Apostar faz você perder dinheiro” ou “Ministério da Fazenda adverte: Aposta não é investimento”. A medida, que ecoa as restrições já aplicadas a cigarros e bebidas alcoólicas, visa conter o avanço desenfreado do mercado de apostas no país, que movimenta bilhões de reais e já gerou alertas de órgãos de defesa do consumidor e da saúde pública.

De acordo com o texto da portaria, a advertência deve ocupar, no mínimo, 10% do comprimento ou do tamanho do anúncio, ser apresentada na horizontal, com legibilidade e contraste adequados, e não pode ser obscurecida por outros elementos gráficos. A exigência se aplica a todos os meios de comunicação, incluindo televisão, rádio, internet, mídia impressa e painéis publicitários. A medida é parte de um pacote de regulamentação que o governo vem implementando desde que as apostas de quota fixa foram legalizadas, em 2018, mas que só agora ganha contornos mais duros diante do crescimento explosivo do setor e do aumento de denúncias de endividamento e dependência entre apostadores.

Proibição de associação a sucesso financeiro e ganho fácil

Além das advertências obrigatórias, outra portaria, já em vigor, estabelece limites claros para o conteúdo das propagandas. Fica proibida qualquer ação publicitária que sugira que as apostas representam “ganho fácil”, “sinal de sucesso pessoal, social ou financeiro” ou que encoraje “práticas excessivas de apostas ou a utilização dos jogos como fonte de renda ou forma de investimentos”. A medida atinge diretamente campanhas que, nos últimos anos, usaram celebridades, influenciadores e promessas de enriquecimento rápido para atrair novos usuários, especialmente jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

A portaria determina ainda que as infrações serão investigadas pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça. O ministro da Fazenda, em declaração recente, reforçou que as empresas que descumprirem as regras poderão ser multadas, ter suas operações suspensas e, em casos graves, perder a autorização para atuar no setor. A medida representa um endurecimento significativo em relação ao marco regulatório anterior, que era criticado por ser brando e pouco fiscalizado.

Panorama político e econômico: regulação em meio a pressões e polêmicas

A nova regulamentação surge em um contexto de intenso debate nacional sobre os impactos das apostas esportivas. No Congresso, deputados federais abriram um debate público sobre o tema, convidando a sociedade a participar de audiências e consultas. Paralelamente, o governo enfrenta pressão de setores que pedem o fim da escala 6×1 de trabalho, enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, recebe centrais sindicais e representantes do governo para discutir o impasse. A regulação das bets, no entanto, tem sido tratada como prioridade pela equipe econômica, que vê no setor uma fonte potencial de arrecadação, mas também um risco sistêmico para o endividamento das famílias.

Dados recentes do Banco Central indicam que, em 2025, as apostas online consumiram cerca de R$ 20 bilhões das economias domésticas, valor que supera o gasto com alimentação em algumas regiões. A inflação de junho, embora tenha sido a menor para o mês em três anos, ainda está acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central, o que acendeu alertas sobre o impacto do consumo de apostas no orçamento das famílias de baixa renda. A nova portaria, portanto, não é apenas uma medida de proteção ao consumidor, mas também um instrumento de política econômica e social, em um momento em que o governo busca conter o endividamento e promover a educação financeira.

A medida também se alinha a outras iniciativas recentes do governo, como a lei sancionada no Piauí que obriga empresas contratadas pelo estado a reservar vagas para ex-presos, e as novas regras para a orla de Maceió, que reforçam a fiscalização de atividades náuticas. Ambas as ações refletem uma tendência de maior intervenção estatal em setores que impactam diretamente a vida da população, seja no lazer, no trabalho ou no consumo.

Com a portaria, o governo espera reduzir os danos causados pelo jogo patológico, que já é considerado um problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde. A medida, no entanto, enfrenta resistência de parte do setor, que alega que as restrições podem inviabilizar o mercado legal e empurrar os apostadores para sites não regulamentados. Ainda assim, o Ministério da Fazenda afirma que a fiscalização será intensificada e que as plataformas que não se adequarem às novas regras serão punidas exemplarmente.

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