A carta de Jair Bolsonaro em apoio a seu filho, lida e publicada neste sábado (11) nas redes sociais por Flávio Bolsonaro, gerou críticas de candidatos, pode colocar em risco a prisão domiciliar do ex-presidente com o recurso do PT ao Supremo Tribunal Federal (STF) e incomodou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Na noite de sábado, o documento, endereçado ao presidente dos EUA, Donald Trump, pede o adiamento das tarifas de 25% sobre produtos brasileiros para depois das eleições de 2026, culpa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela crise diplomática e sugere que a medida beneficiaria o governo petista. A iniciativa, no entanto, expõe um racha na oposição e levanta questionamentos sobre os limites da atuação política de Bolsonaro durante o regime de prisão domiciliar.
O conteúdo da carta, que também foi compartilhada por aliados do ex-presidente, gerou reações imediatas. Candidatos de oposição, como Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União-GO), criticaram abertamente a estratégia, classificando-a como precipitada e prejudicial à unidade da direita. Em nota, Zema afirmou que “a política externa não pode ser pautada por interesses eleitorais de um único grupo”, enquanto Caiado defendeu que “o Brasil precisa de uma oposição responsável, que não coloque em risco as relações comerciais com os EUA”. A insatisfação também veio de setores do centrão, que veem na carta um movimento arriscado para isolar o ex-presidente.
Repercussão jurídica e risco à prisão domiciliar
O Partido dos Trabalhadores (PT) anunciou que recorrerá ao STF contra a carta, argumentando que Jair Bolsonaro, ao se comunicar com um chefe de Estado estrangeiro sem autorização judicial, violou as condições de sua prisão domiciliar. O recurso, protocolado pelo advogado-geral do partido, Eugênio Aragão, pede que o ministro Alexandre de Moraes reavalie a medida cautelar e, se necessário, converta a prisão domiciliar em regime fechado. “Bolsonaro não é um cidadão comum; ele está sob investigação e não pode usar sua posição para interferir em relações internacionais”, declarou Aragão. A defesa de Bolsonaro, por sua vez, alega que a carta é um ato de liberdade de expressão e que não há qualquer proibição explícita na decisão judicial.
O cenário jurídico se complica ainda mais com a possibilidade de o STF interpretar a carta como uma tentativa de obstruir as investigações sobre a tentativa de golpe de Estado em 2022. Fontes do tribunal ouvidas pela reportagem indicam que a corte pode endurecer as restrições impostas a Bolsonaro, especialmente após a pressão internacional gerada pelo pedido a Trump. A crise diplomática entre Brasil e EUA, que já dura um ano desde a carta de Trump a Lula, ganha novos contornos com a interferência direta de um ex-presidente brasileiro.
O incômodo de Michelle Bolsonaro e o racha familiar
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro teria se incomodado com o teor da carta e com a forma como foi divulgada. Segundo assessores próximos, ela considera que o documento expõe a família a riscos desnecessários e pode prejudicar a imagem do ex-presidente junto ao eleitorado evangélico, base importante de seu apoio. Michelle, que tem se mantido discreta nos últimos meses, teria expressado sua insatisfação em conversas privadas, mas evitou se manifestar publicamente para não ampliar a crise. O mal-estar familiar reflete a divisão interna no clã Bolsonaro sobre a estratégia política para 2026.
Enquanto Flávio Bolsonaro defende abertamente a aliança com Trump e a postura agressiva contra Lula, outros filhos, como Eduardo Bolsonaro, teriam alertado sobre os riscos de um tom político em audiências nos EUA. A carta, no entanto, foi lida por Flávio sem consulta prévia a aliados estratégicos, o que gerou críticas até mesmo de setores do PL. O presidente do partido, Valdemar Costa Neto, afirmou em off que “a oposição precisa de unidade, não de aventuras” e que a carta pode ter sido um tiro no pé.
A crise política se agrava em um momento de tensão comercial global, com a guerra comercial entre EUA e Brasil se intensificando. A carta de Bolsonaro, ao pedir que Trump adie as tarifas para depois das eleições de 2026, é vista por analistas como uma tentativa de capitalizar politicamente o desgaste de Lula, mas que pode ter o efeito oposto, fortalecendo o discurso do governo de que a oposição age contra os interesses nacionais. Enquanto isso, o mercado financeiro reage com cautela, e a cotação do dólar sobe, refletindo a incerteza gerada pelo episódio.
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