A Polícia Federal (PF) aponta que o ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG) e a servidora da Câmara dos Deputados Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, forjaram o processo de indicação de emendas parlamentares para beneficiar um político sem mandato, conforme relatório divulgado nesta segunda-feira (12). A investigação, que integra a Operação Lava Jato, levou o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), a determinar o bloqueio de R$ 6 milhões de Cunha por suspeita de desvio de verbas públicas. Em nota, Cunha negou qualquer irregularidade, enquanto a defesa de Mariângela afirmou que sua atuação era estritamente técnica, apartidária e impessoal.
As mensagens trocadas entre Cunha e Fialek revelam como o ex-presidente da Câmara, cassado em 2016, tem atuado para fortalecer sua base política em Minas Gerais, estado com o qual nunca manteve vinculação original — sua base é o Rio de Janeiro. Em um dos diálogos, Cunha demonstra descontentamento com a burocracia local: “Boa tarde, desculpa mas eu não aguento mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício etc. É mais fácil trocar”, escreveu. A PF interpretou a fala como “pouco apreço” pelo estado.
Paternidade da emenda e disputa política
Em outro trecho, a investigação destaca a preocupação de Cunha com a titularidade de uma emenda destinada a Manhuaçu (MG). “Oi. Se puder. Tou com um problema lá em uma das emendas de Manhuaçu que o pessoal lá é inimigo e estão dizendo que é do Nikolas. Como pôs no Gilberto Abramo, preciso de um ofício dele dizendo que essa emenda é de autoria dele, a pedido do Deputado estadual João Magalhães, senão vamos ter de trocar e não mandar para lá”, afirmou Cunha. A PF considerou a mensagem “causa estranheza”, pois Cunha não possui mandato, mas faz referência a problemas com emendas. O deputado Gilberto Abramo (Republicanos-MG) foi citado como possível autor do ofício para esclarecer que a emenda era do grupo político de Cunha, e não de Nikolas Ferreira (PL-MG). “Cidade pequena é uma guerra”, completou Cunha.
A PF também cita mensagens em que Cunha menciona outros deputados autores de emendas para Minas Gerais, como Cleitinho (Republicanos-MG), indicando uma rede de articulação para direcionar recursos públicos. O esquema, segundo a PF, envolve a “burla” no processo de alocação, com a servidora atuando para viabilizar as indicações de Cunha, mesmo sem ele ter mandato. O bloqueio de R$ 6 milhões foi justificado por Dino como medida cautelar para evitar a dissipação de patrimônio.
O caso insere-se em um contexto mais amplo de investigações sobre desvio de emendas parlamentares, que já resultaram em operações como a que desvendou esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo o ex-BRB e o Banco Master, conforme reportado pelo portal. A atuação de Cunha, mesmo após cassação, evidencia a persistência de práticas de clientelismo e controle de verbas públicas, com impacto direto na gestão de recursos em municípios mineiros.
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