Apesar da orientação da Arquidiocese de Brasília para que os fiéis evitem a Capela Santo Atanásio e da confirmação da excomunhão do padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, a rotina na comunidade em Ceilândia, no Distrito Federal, segue inalterada. Em entrevista ao g1, o sacerdote afirmou que rejeita a punição e sustenta que o Vaticano contradiz a própria lei da Igreja ao aplicar a excomunhão à Fraternidade Sacerdotal São Pio X – grupo tradicionalista fundado na Suíça que entrou em conflito com a Santa Sé após ordenar quatro bispos sem autorização do Papa Leão 14.
“Eu vou fazer o meu dia a dia aqui. Rezar minhas missas, atender as pessoas que necessitem do meu trabalho, do meu ministério sacerdotal. A minha vida é muito mais simples do que essas coisas mais complexas”, declarou o padre ao g1 logo após atender uma fiel que buscava orientação espiritual. Neste fim de semana, um casamento está marcado para ser celebrado na capela, que mantém um “laço de amizade” com a Fraternidade São Pio X.
O caso remonta ao período entre 1962 e 1965, quando o Concílio Vaticano II promoveu uma das maiores reformas da história recente da Igreja Católica. A Fraternidade Sacerdotal São Pio X rejeita parte dessas reformas, o que gerou atrito com o Vaticano. Após a ordenação dos quatro bispos sem autorização papal, o Vaticano declarou que padres e fiéis que aderirem formalmente à Fraternidade passam a ser considerados em situação de cisma e excomunhão.
Para Françoá, a punição aplicada à Fraternidade São Pio X – e a ele, por extensão – não tem fundamento jurídico. Segundo o sacerdote, a excomunhão prevista pelo Direito Canônico se aplica a quem rompe a comunhão da Igreja em questões relacionadas à fé e aos sacramentos. Na avaliação dele, esse não é o caso do grupo. “Como podem nos excomungar se o que nós estamos fazendo é exatamente para proteger a fé católica e os sacramentos católicos? Essa é uma questão que é preciso, então, ter em conta os dois lados”, afirmou.
O sacerdote rejeita o título de “ultraconservador” atribuído ao grupo. “Somos apenas católicos, conservando a tradição da igreja […] Estamos dispostos a sofrer o que for preciso para continuar anunciando a verdade dentro da própria Igreja Católica, que infelizmente foi tomada por essas ideias revolucionárias”, disse.
Panorama político e eclesial
A excomunhão do padre Françoá e a adesão da Capela Santo Atanásio à Fraternidade São Pio X ocorrem em um contexto de crescente tensão entre setores tradicionalistas e a hierarquia do Vaticano. O conflito não se limita ao Brasil: a Fraternidade, fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, já foi alvo de medidas disciplinares em diversos países, incluindo a excomunhão de seus líderes em 1988 pelo Papa João Paulo II. A recente ordenação de bispos sem autorização do Papa Leão 14 reacendeu o debate sobre os limites da autonomia litúrgica e teológica dentro da Igreja Católica.
No plano local, a Arquidiocese de Brasília emitiu nota confirmando a excomunhão de Françoá e afirmou que celebrações, atividades pastorais, iniciativas de formação e demais atos promovidos na Capela Santo Atanásio são considerados irregulares e devem ser “terminantemente evitados pelos fiéis, em razão do grave risco de gradual aderência ao mesmo cisma e excomunhão”. A medida reflete a posição oficial do Vaticano, que busca conter a disseminação de grupos que rejeitam as reformas do Concílio Vaticano II, especialmente no que tange à liturgia e à autoridade papal.
O caso também levanta questões sobre o impacto político e social da atuação de grupos ultraconservadores dentro da Igreja Católica, que frequentemente se opõem a pautas progressistas, como o diálogo inter-religioso, a defesa dos direitos humanos e a abertura a mudanças doutrinárias. Enquanto isso, a comunidade em Ceilândia mantém sua rotina, com o padre Françoá afirmando que continuará a exercer seu ministério, independentemente da decisão do Vaticano.
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