Tarifaço dos EUA sobre o Brasil impulsiona busca por novos mercados, mas China impõe limites às exportações

O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode levar empresas a buscar novos mercados para reduzir a dependência do consumidor americano. Nesse cenário, a China, principal destino das exportações do Brasil, aparece como uma alternativa, mas especialistas avaliam que o país asiático deve absorver apenas uma parcela das vendas que eventualmente forem afetadas pelas tarifas americanas. A diferença entre o perfil das exportações brasileiras para os dois países e a própria capacidade industrial chinesa limitam uma substituição rápida dos mercados, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

No ano passado, o Brasil exportou US$ 99,94 bilhões (cerca de R$ 512 bilhões) para a China, valor bem mais que o dobro das vendas para os EUA, que somaram US$ 37,7 bilhões (cerca de R$ 192,7 bilhões). No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para o mercado chinês alcançaram recorde de US$ 58,32 bilhões (cerca de R$ 299 bilhões), alta de 21,9% na comparação com igual período do ano anterior. Ainda assim, a China não é uma solução imediata para a maior parte dos produtos atingidos.

Limitações estruturais e perfil das exportações

Enquanto os americanos importam do Brasil principalmente aeronaves, máquinas, equipamentos, produtos siderúrgicos transformados e outros bens industrializados, as compras chinesas são concentradas em commodities. Atualmente, soja, petróleo bruto, minério de ferro e carnes representam quase 90% das exportações brasileiras para a China. Essa concentração reduz a capacidade de empresas que vendem produtos industriais aos EUA migrarem para o mercado chinês.

“Quando existe excedente de produção, as empresas buscam novos mercados. A China é um grande mercado, mas eu não acredito que somente o tarifaço vá provocar alguma mudança nisso”, afirma Rodrigo Giraldelli, especialista em comércio China-Brasil e CEO da China Gate. “O que entra nesse tarifaço são, basicamente, produtos manufaturados, máquinas, equipamentos e esse tipo de coisa. E, nesse caso, a China produz muito e exporta justamente esse tipo de produto”, diz.

“Um fabricante brasileiro que perder mercado nos EUA nem sempre consegue redirecionar sua produção para a China. Isso ocorre apenas parcialmente e varia conforme o setor”, explica Wagner Pagliato, coordenador dos cursos de Administração e Ciências Contábeis da Unicid. Segundo Vera Kanas, especialista em comércio internacional, a China tende a oferecer mais oportunidades para produtos agrícolas e minerais do que para bens industrializados.

Panorama político e econômico

O tarifaço americano ocorre em um contexto de tensões comerciais globais, com o governo dos EUA adotando medidas protecionistas que afetam diversos parceiros, incluindo o Brasil. Enquanto isso, o governo brasileiro avalia adotar a reciprocidade e proteger setores atingidos, conforme reportado. A dependência brasileira do mercado chinês, que já é o principal destino das exportações, expõe vulnerabilidades, mas também abre espaço para negociações bilaterais. A diversificação de parceiros comerciais, como a União Europeia e outros países asiáticos, pode ser uma estratégia de longo prazo, mas a curto prazo, a China continua sendo a alternativa mais viável, ainda que limitada pelo perfil das exportações.

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