Um trabalhador de 65 anos, que não teve a identidade divulgada, foi resgatado em condições análogas à escravidão em uma propriedade rural no interior da Estação Ecológica Terra do Meio, unidade de conservação federal em Altamira, cidade a 813 km de Belém, no sudoeste do Pará. O caso foi confirmado pela Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT). Segundo o órgão, o homem vivia há oito anos no local, sozinho, sem água potável, com alimentação precária e em uma moradia degradante.
A operação de resgate foi realizada neste mês e contou com a participação do Ministério Público do Trabalho (MPT), da Defensoria Pública da União (DPU) e da Polícia Federal (PF). As denúncias tiveram origem em inspeções anteriores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do próprio MPT.
Isolamento na floresta
De acordo com a AFT, desde novembro de 2018 o trabalhador exercia sozinho atividades de manutenção e conservação da propriedade. Ele era responsável pela vigilância da fazenda, manutenção da pista de pouso, manejo dos animais e cultivo de pequenas lavouras para subsistência. A fiscalização informou que ele vivia em completo isolamento, em uma área cercada por floresta, sem acesso regular a serviços públicos, meios de comunicação, atendimento médico ou condições mínimas de dignidade. Segundo os órgãos envolvidos, o acesso ao local só era possível por via aérea ou fluvial. A equipe de resgate utilizou um helicóptero da PF, partindo de Altamira em um deslocamento de aproximadamente duas horas de voo até a propriedade.
Água barrenta e alimentação precária
Entre as irregularidades constatadas pela fiscalização estava a falta de água potável. Segundo o relatório, o trabalhador consumia água retirada diretamente do rio Pardo, armazenada em recipientes reutilizados de óleo lubrificante de motor. Ele aguardava a decantação do barro antes de consumi-la, mas a água ainda permanecia turva e imprópria para o consumo. De acordo com o trabalhador, a alimentação era composta basicamente por arroz, feijão, óleo, sal e alguns temperos enviados esporadicamente pelo empregador. O idoso contou que houve períodos em que passou anos sem consumir carne bovina ou de frango. Do rio, o homem pescava piranhas e consumia apenas a cabeça, destinando o restante aos porcos. Ainda segundo o relato do trabalhador, em determinado período de 2025, ficou cerca de três meses sem receber mantimentos. Sobreviveu apenas das abóboras que cultivava e das piranhas que pescava, preparadas somente com óleo e sal. Diante da escassez, o homem chegou a cogitar abandonar o trabalho, mas desistiu com medo de perder os direitos trabalhistas.
Moradia degradante
De acordo com a fiscalização, a moradia do trabalhador era degradante, sem condições mínimas de habitabilidade. O caso expõe a vulnerabilidade de trabalhadores em regiões remotas da Amazônia, onde o isolamento e a falta de fiscalização permitem a perpetuação de condições análogas à escravidão. A operação conjunta entre AFT, MPT, DPU e PF reforça a importância da atuação integrada para combater essas práticas e garantir a dignidade dos trabalhadores.
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