Nordeste concentra 78% dos shows públicos do Brasil e R$ 2,22 bilhões em contratos com artistas; entenda os motivos

O Nordeste ostenta hoje o título de principal casa dos shows públicos no Brasil, concentrando 78% das apresentações financiadas com recursos públicos e R$ 2,22 bilhões em contratos com artistas, segundo levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas. A análise, que examinou mais de 20 mil contratos firmados por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026, identificou 5.818 das 7.412 apresentações realizadas no período na região. O fenômeno, apontam pesquisadores, decorre de uma combinação de fatores estruturais: concentração do mercado nas mãos de grandes produtoras nordestinas, articulação de políticos locais em busca de retorno de visibilidade e geografia favorável, que reduz custos e facilita rotas de apresentações.

Os dados revelam que Bahia e Pernambuco lideram os gastos com shows públicos no país, desembolsando R$ 578,47 milhões e R$ 573,10 milhões, respectivamente. No outro extremo, o Piauí foi o estado que menos gastou na região: R$ 79 milhões. Os valores consideram tanto os cachês pagos diretamente pelos governos estaduais quanto aqueles firmados por prefeituras, conforme detalha o levantamento.

Piseiro domina o mercado de shows públicos

Apesar do avanço do sertanejo nas festas populares nordestinas dos últimos anos, os ritmos tradicionais da região ainda seguem dominando o mercado de shows públicos. Entre os 40 artistas mais contratados do país, os do piseiro movimentaram R$ 913,04 milhões em contratos públicos, dos quais 88% foram pagos por estados nordestinos. O cantor sergipano Natanzinho Lima, de 23 anos, lidera a lista de artistas mais bem pagos: considerando os contratos firmados em todo o país entre janeiro de 2024 e março de 2026, ele recebeu R$ 158,17 milhões para a realização de 336 shows.

O levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas, que analisou mais de 20 mil contratos, também aponta que a concentração de recursos no Nordeste não é aleatória. Pesquisadores ouvidos pelo g1 explicam que a região abriga grandes produtoras que dominam o mercado de eventos públicos, o que facilita a contratação de artistas locais e reduz custos logísticos. Além disso, a articulação de políticos locais, que enxergam nos shows públicos uma forma de ganhar visibilidade e capital político, impulsiona os investimentos. A geografia favorável, com rotas de transporte mais curtas e menor custo de deslocamento, também contribui para a vantagem nordestina.

O panorama revela um desequilíbrio regional significativo: enquanto o Nordeste concentra 72% do total de cachês pagos e 78% das apresentações realizadas desde 2024 até março de 2026, outras regiões do país ficam com fatias muito menores. Especialistas em gestão pública alertam que a concentração de recursos pode gerar distorções, como a dependência de grandes eventos para a economia local e a falta de investimentos em outras áreas prioritárias. Ainda assim, o mercado de shows públicos no Nordeste segue aquecido, impulsionado por festas tradicionais como o São João e o Carnaval, que movimentam milhões de reais e atraem multidões.

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