Em Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, a restauração de uma casa de meados do século passado, realizada pela arquiteta Hévila Ribeiro, tornou-se uma exceção diante do desaparecimento progressivo do patrimônio arquitetônico da cidade, que completa 115 anos nesta quarta-feira (22). A iniciativa, que começou com a compra do imóvel abandonado no Centro, contrasta com a dinâmica de desenvolvimento local, marcada pela demolição de mais de 70% das casas antigas, conforme mapeamento feito pela própria arquiteta durante seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
O estudo de Hévila Ribeiro fotografou mais de 800 imóveis no Centro Histórico de Juazeiro do Norte e revelou um alerta preocupante: a forte pressão do comércio e do turismo levou ao ‘apagamento’ gradual da área central, que deu lugar a pousadas, lojas e estacionamentos. A arquiteta compara a situação com outras cidades da região, como Crato e Barbalha, e destaca que Juazeiro do Norte, conhecida como a cidade do Padre Cícero e destino de romeiros durante todo o ano, não consegue contar sua própria história por meio de sua arquitetura. ‘Essa área central foi sendo apagada para dar esses novos usos: vieram pousadas e comércios, e essas casas antigas às vezes não abarcavam essas novas necessidades’, afirmou Hévila.
O desafio de reerguer o passado
O projeto de restauração, que já dura dois anos, está localizado na Rua da Conceição, uma área de transição entre o comércio e a zona residencial. A casa estava muito degradada, com graves infiltrações e rachaduras, mas a reforma minuciosa conseguiu preservar mais de 80% da estrutura original, incluindo portas, janelas, o piso original (que foi todo retirado e recolocado) e paredes de tijolos aparentes. Os banheiros ganharam ladrilhos fabricados artesanalmente pela fábrica-museu local. A arquiteta, emocionada, explicou que a motivação começou ainda na faculdade e que, ao encontrar o imóvel, se apaixonou. ‘E hoje estou fazendo acontecer com a ajuda de muita gente, construindo aos poucos’, disse.
O panorama político e cultural da região do Cariri reflete um embate entre o desenvolvimento econômico e a preservação histórica. Enquanto Juazeiro do Norte, polo religioso e turístico, perde seu acervo arquitetônico, cidades vizinhas como Crato e Barbalha mantêm maior integridade de seus centros históricos. A restauração da casa na Rua da Conceição surge como um símbolo de resistência e de valorização da memória, em meio a um processo que a arquiteta classifica como ‘apagamento’ da identidade local. A iniciativa também dialoga com outras ações de preservação na região, como a restauração da casa onde viveu o cordelista Patativa do Assaré, reaberta ao público recentemente, e os esforços em Missão Velha, conhecida como ‘Porta do Cariri’, marcada pelo pioneirismo católico e pela luta pela preservação da história.
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