O governo brasileiro ainda não definiu uma data para o retorno do embaixador do Brasil na Argentina, Júlio Bitelli, a Buenos Aires, após a escalada de tensões provocada por declarações do presidente argentino Javier Milei. O diplomata desembarcou em Brasília na segunda-feira (27) e terá uma nova reunião com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, nesta quarta-feira (29), quando se espera que seja definido o período de permanência no Brasil antes de voltar ao país vizinho.
A convocação de Bitelli para consultas ocorreu depois que Javier Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, de “lixo careca” durante uma convenção do PL no último sábado (25). Em resposta, o Itamaraty também convocou o embaixador da Argentina no Brasil para esclarecimentos.
Diplomacia em compasso de espera
De acordo com integrantes do Ministério das Relações Exteriores, a decisão sobre o eventual retorno de Júlio Bitelli a Buenos Aires dependerá da avaliação do governo brasileiro sobre a “evolução do quadro”. Conforme diplomatas, uma definição só deve ser tomada a partir das próximas conversas do embaixador com o chanceler e da análise do cenário na Argentina, onde, segundo fontes brasileiras, não há sinais de um pedido de desculpas por parte de Javier Milei.
Enquanto isso, a embaixada será conduzida por um encarregado de negócios, o número dois na hierarquia da representação diplomática, o que demonstra, em linguagem própria, o desagrado e descontentamento do Brasil com o comportamento do presidente argentino.
Reuniões e estratégia de contenção
O ministro Mauro Vieira e o embaixador Júlio Bitelli tiveram uma conversa inicial na tarde de segunda-feira (27) no Palácio do Itamaraty, para uma primeira avaliação da situação da relação bilateral com a Argentina. Durante o encontro, que durou cerca de 40 minutos, o chanceler ouviu as impressões de Bitelli sobre o que está acontecendo na Argentina em termos geopolíticos, incluindo a situação econômica e política do país, as perspectivas eleitorais para o ano que vem e a relação do país vizinho com o Brasil.
Em um segundo momento, Mauro Vieira deu instruções ao embaixador sobre o que será feito diante do episódio específico envolvendo Javier Milei. Segundo interlocutores, a ideia colocada no Itamaraty é não fazer um “escarcéu” em cima do fato. O chanceler já descartou, neste momento, medidas diplomáticas mais duras, como a retirada da representação brasileira da Argentina. Segundo ele, o governo brasileiro pretende preservar os canais de diálogo e buscar esclarecimentos por vias diplomáticas.
O embaixador em Buenos Aires também teve um rápido encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fim da tarde de segunda-feira, antes da recepção ao presidente da Coreia, no Itamaraty. Segundo relatos, durante a breve reunião, Lula demonstrou que não quer transformar a situação em uma coisa maior do que é. Auxiliares do petista afirmam que ele não quer dar uma importância maior a Javier Milei do que ele tem, conforme já sinalizado.
A crise ocorre em um momento de reconfiguração geopolítica na América do Sul, com a Argentina enfrentando grave crise econômica e eleições previstas para 2027. O governo brasileiro busca equilibrar a defesa institucional com a manutenção de canais de diálogo, evitando um rompimento que poderia isolar diplomaticamente o país vizinho e prejudicar acordos bilaterais estratégicos, como os do Mercosul e de cooperação energética.
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