O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou nos últimos meses uma ofensiva diplomática para demonstrar que o Brasil não está isolado no cenário global, em meio a crescentes atritos com os Estados Unidos e a Argentina. A movimentação ocorre em um momento de forte polarização política interna, com as eleições presidenciais se aproximando e o apoio explícito de líderes estrangeiros a setores da oposição.
Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, Lula tem mantido contato telefônico com chefes de Estado de diferentes continentes, incluindo Xi Jinping, da China, e Vladimir Putin, da Rússia. A agenda de conversas incluiu ainda Gustavo Petro, da Colômbia, e Santiago Peña, do Paraguai. A expectativa é de que novas ligações ocorram nas próximas semanas, ampliando a rede de diálogo do Brasil.
Relação com os EUA atinge ponto crítico
A crise com o governo americano ganhou novos contornos após a imposição de um tarifaço sobre produtos brasileiros e a mudança no status do visto da embaixadora do Brasil em Washington. Em meio ao impasse, Lula criticou publicamente o secretário de Estado americano, Marco Rubio, classificando-o como “anti-latino-americano”. Apesar do tom duro, o presidente sinalizou interesse em conversar por telefone com Donald Trump, na tentativa de reduzir a tensão bilateral.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a estratégia de Lula de buscar equilíbrio entre parceiros do norte global e a cooperação sul-sul é uma marca de sua política externa, mas os recentes conflitos expõem fragilidades. “Um traço da política externa de Lula sempre foi investir tanto em parceiros bem consolidados do norte global, quanto em buscar fortalecer uma cooperação sul-sul”, afirma Carolina Pavese, doutora em Relações Internacionais.
Oposição explora atritos no cenário eleitoral
Os desgastes com Trump e com o presidente da Argentina, Javier Milei, têm sido explorados por adversários do governo, que questionam os resultados e os rumos da diplomacia brasileira. Milei, que mantém histórico de críticas a Lula, declarou apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência. A proximidade de governos estrangeiros com a oposição passou a ser tema central no debate político, acirrando a polarização.
Para Pavese, esses conflitos internacionais têm impacto direto na política doméstica. “Isso impacta diretamente a estratégia que o Brasil emprega para promover uma defesa do Estado, porque não é só uma dissonância ideológica entre o governo de Lula e Trump e Milei. Há um ataque direto dessas lideranças para impulsionar essa polarização”, afirma a especialista.
Apesar das tensões, integrantes do Planalto e do Itamaraty garantem que a política externa brasileira mantém canais de diálogo abertos, mesmo com os países com os quais há divergências. A insistência no diálogo, segundo fontes, é vista como essencial para evitar um isolamento internacional do Brasil em um momento de grande instabilidade global.
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