Fino, dinheiro e coragem: a exploração da masculinidade nas entregas por aplicativo

Na esquina de um shopping center em São Paulo, o som de notificações de aplicativos de entrega toca freneticamente a partir das 11h. É apenas quando os pedidos de almoço na região da avenida Paulista recuam, por volta das 15h, que Matheus da Silva Pérez finalmente se senta, enrola um cigarro e conversa com colegas. Ali, eles se reúnem diariamente com suas bags e bikes, num improvisado escritório ao ar livre. Eles são, em sua maioria, jovens. Aos 22 anos, Matheus trabalha há seis e começou a fazer entregas para complementar renda — antes, trabalhava em um lava-rápido e fazia bicos como barista e garçom. Mas logo ele percebeu que poderia se dedicar apenas às entregas: “Vi que eu não precisava mais trampar em lugar nenhum quando vi que conseguia fazer muito mais dinheiro com entrega.”

O trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil. Em 2024, eram 1,7 milhão de pessoas nessa modalidade, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o equivalente a 1,9% dos ocupados no setor privado. Em dois anos, houve um crescimento de 25,4%, com a entrada de mais 335 mil trabalhadores. A maioria atua no transporte de passageiros: são 58,3% (964 mil). Já os entregadores representam 29,3% — ou seja, 485 mil pessoas. O grupo não é homogêneo: os trabalhadores que atuam em entregas se dividem principalmente pela idade e pelo veículo utilizado.

Renda e jornada: os números da precarização

A renda média dos trabalhadores plataformizados, na época, era de R$ 2.996 com jornadas acima de 40 horas semanais. O rendimento médio da população brasileira atinge R$ 3.367 em 2025. Matheus, que começou nos apps para complementar a renda, hoje faz entregas como seu trabalho principal. Ele sai todos os dias da Brasilândia, na Zona Oeste de São Paulo, e vai de ônibus e metrô até a Paulista, uma zona “quente” para pedidos. Ele deixa sua bicicleta num estacionamento na região para evitar começar o dia já com fadiga. Mesmo com uma elétrica, o esforço físico é grande: “Você ainda tem que pedalar, senão a bateria vai muito rápido, você acaba fazendo duas entregas, e a bateria acaba”, diz.

Autonomia versus exaustão mental

O jovem gosta de trabalhar na rua, ao ar livre, de não estar preso a um escritório, sem saber se o dia está ensolarado. Mas o que mais o atraiu foi a autonomia: “Pode escolher o horário do almoço. Pode folgar quando quiser. Pode trabalhar mais num dia e menos no outro. Pode parar para estudar, voltar para casa, descansar.” Para ele, o desgaste mental supera o físico: “Você passa estresse no estabelecimento, com pedestres, com o cliente. Não é fácil. A maioria do cansaço é mental, porque fisicamente a gente não sente tanto, porque a gente é novo. Mas mentalmente é muito exaustivo.”

O ponto de encontro dos entregadores é local onde eles fazem amigos, trocam dicas e estratégias para maximizar os ganhos. No entanto, a pressão por desempenho e a competição constante são apontadas por especialistas como mecanismos que exploram a chamada “prova de masculinidade” — a necessidade de provar coragem, resistência e capacidade de ganhar dinheiro rápido, muitas vezes em detrimento da saúde e da segurança. A reportagem do G1, assinada por Vitor Serrano, da BBC, destaca que essa dinâmica é alimentada pelos próprios aplicativos, que usam rankings, bônus e metas para estimular os entregadores a aceitar mais corridas e a correr mais riscos.

O cenário reflete um mercado de trabalho em transformação, onde a informalidade e a tecnologia se misturam. Enquanto o número de entregadores cresce, as discussões sobre regulamentação e direitos trabalhistas avançam no Congresso, mas sem consenso. Para os trabalhadores, a autonomia prometida pelas plataformas muitas vezes se traduz em jornadas exaustivas e renda incerta, como mostra o caso de Matheus, que representa uma geração que encontrou nos aplicativos uma alternativa ao desemprego, mas que ainda luta por condições dignas.

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