Um levantamento do g1, baseado em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revelou que 786 candidatos registrados para as eleições de 2026 alteraram a autodeclaração de cor ou raça em comparação com o pleito de 2022. O número representa 4,5% das 17.413 candidaturas protocoladas até o momento, com dados extraídos às 19h30 de quarta-feira (12). A análise aponta que a mudança mais frequente foi de branca para parda, em 308 casos, seguida da alteração inversa, de parda para branca, em 262 registros. Juntas, essas duas transições somam 570 ocorrências, ou 72,5% de todas as divergências identificadas.
Os números, no entanto, ainda podem sofrer alterações, pois partidos, federações e coligações têm até as 19h de 15 de agosto, sábado, para apresentar os pedidos de registro. A análise comparativa foi feita com base nos dados de 2022, quando o g1 já havia identificado 2.510 candidatos com mudanças na autodeclaração, o equivalente a nove em cada cem candidaturas daquele ano. Na ocasião, 938 mudanças – mais de um terço do total – eram de candidatos que haviam se declarado brancos em 2020 e passaram a se declarar pretos ou pardos em 2022.
Especialistas apontam múltiplas causas para as alterações
A socióloga Flávia Rios, professora da Universidade de São Paulo e pesquisadora do núcleo Afro-Cebrap, explica que as oscilações nas declarações de cor ou raça não são um fenômeno novo. Ela lembra que o TSE passou a coletar essa informação em 2014, seguindo as categorias do IBGE. “Embora a gente tenha perguntas sobre cor em vários documentos brasileiros desde o Censo de 1872, a pergunta sobre cor no TSE é relativamente recente. Ela é de 2014, quando começa a ser introduzida nos formulários a chamada autodeclaração. Desde então, essa movimentação tem chamado a atenção, sobretudo nas eleições subsequentes. Essa oscilação não é nova”, afirma.
Já a doutora em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidade de Salamanca e coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil, Ana Cláudia Santano, ressalta que a alteração, por si só, não indica irregularidade. “Quando a gente fala de alteração da autodeclaração, ela, por si só, não supõe nada errado, porque essa alteração pode se dar por muitas razões, dentre elas erro de preenchimento no registro de candidatura. O erro humano acontece. Também pode ser uma tomada de consciência por parte da pessoa; ou alguma decisão motivada por razões pragmáticas, para tentar aquele financiamento específico das pessoas negras”, explica.
O panorama geral das eleições de 2026 já apresenta um cenário de disputa acirrada em diversos estados, com a renovação de mandatos e a entrada de novos nomes na política. A questão racial, historicamente sensível no Brasil, ganha contornos ainda mais relevantes em um momento em que políticas de cotas e financiamento específico para candidaturas negras estão em pauta. A oscilação na autodeclaração, portanto, levanta debates sobre a efetividade dessas políticas e a necessidade de critérios mais rígidos de verificação, embora especialistas alertem para a complexidade do tema, que envolve identidade, consciência e, em alguns casos, oportunismo.
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