Cientistas identificaram que o mosquito Anopheles darlingi, principal transmissor da malária na América do Sul, desenvolveu resistência genética a inseticidas em diversos países do continente, conforme estudo publicado na revista Science nesta quinta-feira.
A pesquisa realizou o mapeamento inédito do genoma de 1.094 fêmeas adultas coletadas em 16 regiões distintas. O esforço envolveu estudiosos brasileiros e de Harvard, analisando amostras de países como Brasil, Colômbia, Peru e Venezuela.
Os especialistas sugerem que a pressão evolutiva sobre os insetos não decorre apenas das campanhas de saúde pública. O uso disseminado de produtos químicos na agropecuária parece ser o fator determinante para essa mutação defensiva.
Impacto na Saúde Pública
Como as larvas se desenvolvem em coleções de água, elas acabam expostas ao escoamento de defensivos agrícolas usados em plantações. Esse contato precoce seleciona os espécimes com genes de maior tolerância às substâncias tóxicas.
O Brasil registra anualmente cerca de 162 mil casos de malária e corre o risco de ver suas estratégias de controle fracassarem. Atualmente, o combate depende fortemente de mosquiteiros e borrifação residual nas moradias ribeirinhas e rurais.
O cenário preocupa as autoridades por espelhar o colapso ocorrido na África, onde inseticidas se tornaram obsoletos após décadas de uso. Maria Anice Mureb Sallum, da USP, defende uma vigilância integrada entre saúde e uso do solo.
A investigação agora foca em quantificar o nível exato dessa proteção biológica dos mosquitos para ajustar as políticas de prevenção. O próximo passo será testar quais compostos químicos atuais ainda mantêm eficácia contra o vetor.
