O Brasil enfrenta uma crise silenciosa e devastadora nas suas vias, onde a segurança de crianças e adolescentes é brutalmente ceifada. Mais de 4 mil jovens, com idades entre 1 e 17 anos, perderam a vida em acidentes de trânsito em todo o território nacional entre 2018 e novembro de 2025, totalizando 4.386 vítimas fatais. Este panorama trágico, revelado por dados do Registro Nacional de Acidentes e Estatísticas de Trânsito (Renaest), é um reflexo da ineficácia das políticas públicas de segurança viária e da urgência de ações coordenadas para proteger a população mais vulnerável, como exemplificado pela recente e chocante morte de mãe e filho na Tijuca, Rio de Janeiro.
A gravidade da situação foi dolorosamente ilustrada nesta terça-feira, dia 31, com a confirmação da morte de uma mulher de 40 anos e seu filho de apenas 9 anos, após serem atingidos por um ônibus na tarde de segunda-feira, dia 30, enquanto utilizavam uma bicicleta elétrica na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Segundo o Corpo de Bombeiros, o acidente ocorreu pouco depois das 13h. O motorista do ônibus relatou que as vítimas teriam sido fechadas por um carro, caíram na pista e foram fatalmente atingidas. O caso está sob investigação como homicídio culposo. O menino, identificado como Francisco Farias Antunes, filho do roteirista Vinicius Antunes, conhecido como Cacofonias, chegou a ser socorrido, mas não resistiu a caminho do hospital. Este incidente isolado ressalta a vulnerabilidade de pedestres e ciclistas em um trânsito cada vez mais caótico.
No mesmo período analisado pelo Renaest, o país registrou um assombroso total de 136.122 ocorrências envolvendo crianças e adolescentes na faixa etária de 1 a 17 anos. Esses números não apenas representam perdas irreparáveis para milhares de famílias, mas também expõem a falha sistêmica em garantir um ambiente seguro para o desenvolvimento e a mobilidade dos jovens brasileiros. A cada acidente, a sociedade perde não apenas vidas, mas também o potencial e o futuro que essas crianças e adolescentes representavam.
A Tragédia Silenciosa: Meninos São Maioria Entre as Vítimas
A análise dos dados revela uma disparidade preocupante entre as vítimas. A maioria das mortes é de meninos, com um total de 2.921 óbitos, o que corresponde a aproximadamente dois terços do total. Entre as meninas, foram registradas 1.441 mortes no mesmo período. Há ainda 20 casos sem informação de sexo e 4 classificados como desconhecidos, indicando a necessidade de maior detalhamento na coleta de dados para uma compreensão mais completa do problema e a formulação de políticas direcionadas.
Geografia da Dor: SP, MG e GO Lideram o Ranking de Mortes
A distribuição geográfica das mortes de crianças e adolescentes em acidentes de trânsito mostra uma concentração alarmante em algumas regiões. O estado de São Paulo lidera o ranking nacional, com 1.332 mortes de crianças e adolescentes entre 2018 e 2025. Em seguida, aparece Minas Gerais, com 728 vítimas, e Goiás, com 413. Juntos, esses três estados concentram 2.473 óbitos, o que representa mais da metade do total registrado em todo o país, evidenciando a urgência de intervenções específicas nessas localidades. Outros estados com números relevantes incluem o Rio de Janeiro, com 276 mortes, Rio Grande do Sul, com 230, e Santa Catarina, com 160. O Maranhão registrou 135 óbitos, Tocantins, 110, e Mato Grosso, 104. Em contraste, os menores registros foram observados em Roraima, com 3 mortes, Amapá, sem registros, e Acre, com 19.
Um Cenário de Desafios: A Oscilação dos Acidentes e o Fracasso das Metas
Os registros de acidentes envolvendo crianças e adolescentes apresentaram oscilações ao longo do período analisado, sem uma tendência contínua de queda, o que demonstra a ineficácia das estratégias atuais. Em 2018, foram contabilizados 17.159 casos e 654 mortes. No ano seguinte, 2019, houve um aumento significativo, atingindo o pico da série histórica com 20.537 ocorrências e 500 mortes. Em 2020, o primeiro ano da pandemia de Covid-19, observou-se uma redução para 16.156 casos e 446 mortes, uma queda que coincide com as restrições de circulação impostas naquele período. No entanto, nos anos seguintes, os números voltaram a subir, sem alcançar novamente o patamar de 2019, mas sem apresentar uma diminuição sustentável, o que indica que a redução de 2020 foi um evento atípico e não resultado de políticas eficazes de segurança viária.
Este cenário de mortes e acidentes crescentes, especialmente entre os mais jovens, é agravado pelo panorama político e de saúde pública no Brasil. O país, lamentavelmente, não cumpre as metas de redução de acidentes de trânsito pactuadas com a Organização das Nações Unidas (ONU), demonstrando uma lacuna crítica na implementação de políticas eficazes. Além do custo humano incalculável, os acidentes de trânsito impõem um fardo financeiro colossal ao Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2024, o SUS gastou R$ 449 milhões com vítimas de trânsito, um valor que sobrecarrega ainda mais um sistema já desafiado. A situação é ainda mais crítica com o fim do seguro DPVAT, que historicamente destinava recursos para o tratamento de vítimas de acidentes e para o próprio SUS. A ausência desses recursos agrava o “rombo” na saúde pública, comprometendo a capacidade de atendimento e reabilitação das vítimas. É imperativo que as autoridades federais, estaduais e municipais revisem e fortaleçam as políticas de segurança viária, invistam em infraestrutura, educação e fiscalização, e garantam o financiamento adequado para o tratamento e a prevenção, transformando a segurança no trânsito em uma prioridade nacional inadiável.
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