A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas já repercute nos bastidores políticos e diplomáticos do Brasil. Enquanto setores da oposição, liderados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), tentam transformar a medida em trunfo político e constranger o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a área diplomática brasileira monitora com atenção os possíveis desdobramentos de longo prazo, especialmente o risco de que o precedente seja usado para justificar futuras interferências externas em assuntos internos de países da América do Sul.
O anúncio da classificação foi feito um dia após Flávio Bolsonaro se reunir com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Segundo o senador e pré-candidato à Presidência, Rubio teria se mostrado favorável ao enquadramento das facções como terroristas. A reunião ocorre em meio ao escândalo que envolve as relações do parlamentar com o empresário Daniel Vorcaro, expondo fissuras na pré-candidatura de Flávio e no próprio Partido Liberal (PL).
Estratégia política e reação do governo
No entorno de Flávio Bolsonaro, a avaliação é que o tema pode desgastar o governo Lula em uma área sensível para a opinião pública: o combate ao crime organizado. A estratégia da oposição passa por pressionar o Palácio do Planalto a se posicionar publicamente sobre a medida e transformar o debate em mais um embate político entre governo e oposição, especialmente em ano eleitoral. A tentativa de associar a decisão americana à pauta bolsonarista é vista como uma forma de sinalizar força ao grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro e manter a agenda de segurança pública no centro do debate nacional.
No governo brasileiro, porém, a leitura é diferente. Fontes do Palácio do Planalto afirmam que a decisão americana já era esperada e estava “precificada” pela diplomacia brasileira. A avaliação interna é que a medida atende principalmente ao público interno dos Estados Unidos e à política do presidente Donald Trump de endurecimento no combate ao narcotráfico. O governo Lula tenta evitar transformar o tema em confronto direto com Washington para não alimentar uma agenda considerada favorável à oposição e não desgastar a relação bilateral.
Alerta diplomático e precedente perigoso
Nos bastidores da diplomacia brasileira, no entanto, a preocupação vai além do curto prazo. Diplomatas brasileiros veem o movimento como um possível precedente para futuras tentativas de interferência em assuntos internos de países da região sob o argumento do combate ao terrorismo e ao crime organizado. Segundo relatos obtidos pelo blog, integrantes da área diplomática acompanham com atenção os sinais emitidos por Washington e avaliam que esse tipo de classificação pode servir, no futuro, como justificativa para ampliar pressões ou ações externas. Embora não enxerguem qualquer risco imediato de intervenção, a preocupação é com a construção gradual de uma narrativa que permita esse tipo de argumento adiante.
A presença de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos e a tentativa de associar a decisão à pauta bolsonarista são vistas por integrantes do governo como um gesto político que funciona também como sinalização ao grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro. O Planalto, por sua vez, tenta evitar transformar o tema em confronto direto para não alimentar uma agenda considerada favorável à oposição. Enquanto isso, o escândalo financeiro que abala o PL e expõe fissuras na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro segue gerando tensões internas no partido, que também impõe prazos para empresários viabilizarem candidaturas em estados estratégicos, como Minas Gerais, visando fortalecer o palanque nacional da legenda.
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