No último domingo (24), a Folha publicou, com destaque em sua capa da versão impressa, matéria sobre o uso de votações simbólicas pelo Congresso brasileiro, sob o argumento de que esse expediente comprometeria a legitimidade e a transparência do Legislativo. A reportagem, intitulada “Maioria das votações no Congresso é feita de maneira simbólica e sem transparência”, gerou reações imediatas entre parlamentares e analistas políticos, reacendendo o debate sobre os mecanismos de deliberação no Parlamento.
De acordo com a Folha, cerca de 70% das votações na Câmara dos Deputados e no Senado Federal ocorrem de forma simbólica, ou seja, sem o registro individual do voto de cada parlamentar. Nesse modelo, os líderes partidários orientam suas bancadas, e o resultado é apurado visualmente pelo presidente da sessão, sem que haja um sistema eletrônico que identifique nominalmente cada parlamentar. A crítica central da matéria é que esse método reduziria a transparência e dificultaria o controle social sobre a atuação dos congressistas.
O contraponto: eficiência versus transparência
Em resposta à reportagem, a colunista Lara Mesquita publicou, no dia 31 de maio de 2026, um artigo intitulado “A votação simbólica não é a vilã”, no qual defende que o método não é, por si só, um problema. Segundo Mesquita, a votação simbólica é uma ferramenta de agilidade processual, essencial para que o Congresso consiga deliberar sobre centenas de projetos em um ambiente de alta demanda legislativa. Ela argumenta que a transparência não está no método em si, mas na disponibilidade de informações sobre as orientações partidárias e nos registros oficiais das sessões.
“A votação simbólica não é a vilã. O vilão é a falta de um sistema que integre os dados de forma clara e acessível ao cidadão”, escreveu Mesquita. A colunista também destacou que, em muitos casos, a votação nominal – com registro individual – é utilizada apenas para matérias de maior relevância ou quando há requerimento de verificação, o que já está previsto no regimento interno das duas Casas.
Panorama político: entre a eficiência e o escrutínio público
O debate sobre a votação simbólica ocorre em um contexto de crescente pressão por transparência no Legislativo brasileiro. Nos últimos anos, organizações da sociedade civil, como a Transparência Brasil e o Congresso em Foco, têm cobrado maior abertura nos processos decisórios, especialmente após escândalos de corrupção que envolveram parlamentares de diferentes partidos. Em 2025, a Câmara dos Deputados aprovou uma resolução que ampliou o uso do sistema eletrônico de votação, mas a medida ainda não foi totalmente implementada.
Por outro lado, líderes partidários de diversas legendas – como PT, PL, PSDB e União Brasil – defendem que a votação simbólica é necessária para evitar a paralisia do Congresso. Em entrevista à Folha, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que “o regimento já prevê mecanismos de verificação quando há dúvida ou pedido de minoria”. Já o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) criticou a prática, dizendo que “a votação simbólica é um convite à opacidade”.
Especialistas em ciência política, como o professor Jairo Nicolau (UFRJ), apontam que o problema não é exclusivo do Brasil. “Em diversos parlamentos do mundo, como no Reino Unido e no Canadá, votações simbólicas são comuns. A diferença é que lá há um sistema de registro público mais robusto e a cultura de transparência é mais enraizada”, explicou Nicolau em artigo recente.
O impacto da discussão vai além do Congresso. A opinião pública, cada vez mais atenta às decisões legislativas, tem demonstrado insatisfação com a falta de clareza sobre como cada parlamentar vota. Pesquisa do Datafolha de abril de 2026 indicou que 68% dos brasileiros consideram a transparência nas votações do Congresso “ruim” ou “péssima”. Esse dado reforça a necessidade de um debate aprofundado sobre o tema, que envolva não apenas os parlamentares, mas também a sociedade civil e a imprensa.
Em suma, a polêmica em torno da votação simbólica expõe um dilema clássico da democracia representativa: como conciliar a eficiência legislativa com o controle público? Enquanto a Folha aponta os riscos da opacidade, a colunista Lara Mesquita lembra que o método não é o problema central – e que a verdadeira vilã pode ser a falta de um sistema de transparência que acompanhe a velocidade das decisões políticas.
Fonte: ver noticia original

