O governo dos Estados Unidos, por meio do escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), lançou um ataque direto ao sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, acusando a tecnologia nacional de prejudicar “injustamente” as empresas estadunidenses que atuam no setor de pagamentos eletrônicos. O relatório, publicado na noite dessa segunda-feira (1º), aponta que o Brasil concede tratamento preferencial ao Pix, discriminando concorrentes como MasterCard, Visa e WhatsApp Pay. A medida é o resultado de uma investigação iniciada há um ano, ainda sob o governo de Donald Trump, contra supostas “práticas desleais” do Brasil no comércio bilateral, e sugere a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros, elevando a tensão diplomática e econômica entre os dois países.
O documento do USTR, assinado pela conselheira jurídica geral Jennifer Thornton, afirma que “os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial concedido ao Pix são injustos e discriminatórios”. Segundo a representante, “é injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de tarifas”, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas à “campeã nacional, o Pix”, criado pelo Banco Central (BC).
Conflito de interesses e acusações de favorecimento
O relatório destaca que “o papel duplo do Banco Central do Brasil como regulador e proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas”. O texto acrescenta que “o banco agiu para prejudicar os provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e dar preferência ao Pix”. A investigação, que durou um ano, foi conduzida sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, instrumento que permite ao governo americano retaliar países considerados responsáveis por práticas comerciais desleais.
O ataque dos EUA ao Pix ocorre em um momento de crescente tensão comercial entre as duas maiores economias das Américas. No mês passado, o governo americano já havia proposto uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia defendido o Pix publicamente após as primeiras críticas no relatório comercial de abril. Agora, com a formalização das acusações, o Brasil pode enfrentar sanções comerciais que afetam desde o agronegócio até a indústria de tecnologia.
Impactos e reações no cenário político e econômico
A ofensiva americana contra o Pix insere-se em um contexto mais amplo de disputa por hegemonia tecnológica e financeira. Enquanto os EUA buscam proteger suas empresas de pagamento, que dominam o mercado global há décadas, o Brasil consolidou o Pix como um sistema de pagamentos instantâneos de sucesso, com baixo custo e alta capilaridade, beneficiando milhões de brasileiros e pequenos negócios. Para especialistas, a pressão americana pode ser vista como uma tentativa de frear a expansão de um modelo que desafia o oligopólio das bandeiras de cartão e das plataformas digitais estrangeiras.
O governo brasileiro, por meio do Ministério da Economia e do Banco Central, já sinalizou que irá recorrer das acusações e defender o Pix como uma política pública de inclusão financeira. O presidente Lula pediu ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e ao secretário-executivo, Dario Durigan, que avaliem os possíveis prejuízos das medidas dos EUA e preparem uma contraproposta. A expectativa é que o caso seja levado a organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), para evitar uma escalada tarifária que prejudique ambos os lados.
Enquanto isso, o mercado financeiro e as empresas de pagamento monitoram de perto os desdobramentos. A MasterCard, a Visa e o WhatsApp Pay — este último controlado pela Meta — ainda não se manifestaram oficialmente sobre o relatório, mas a pressão americana pode abrir caminho para que essas empresas ampliem sua participação no mercado brasileiro, que hoje é dominado pelo Pix. Para o cidadão comum, a disputa pode resultar em aumento de tarifas e menor oferta de serviços, caso as sanções sejam implementadas.
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