Governo brasileiro reage com indignação a novo tarifaço dos EUA e denuncia “sabotagem” da família Bolsonaro

O governo brasileiro emitiu, nesta terça-feira (2), uma nota oficial em que manifesta indignação com a conclusão preliminar de uma investigação da Seção 301 do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que sugere a imposição de um novo tarifaço contra o Brasil. O documento, divulgado pelo Palácio do Planalto, rebate as acusações de práticas comerciais desleais, aponta articulações da família Bolsonaro contra interesses nacionais e lamenta que o trabalho de diálogo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump tenha sido “sabotado” por interesses meramente eleitorais e familiares. A nota ainda cita dados do superávit americano em bens e serviços com o Brasil e afirma que o país “se reserva ao direito” de adotar medidas recíprocas.

A investigação preliminar do USTR, iniciada em 15 de julho de 2025, foi provocada por integrantes da família Bolsonaro, conforme destaca o governo brasileiro. “Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington”, afirma a nota. O texto classifica como “falsos patriotas” aqueles que, segundo o governo, usam cargos públicos para conspirar contra os interesses nacionais, em referência direta ao ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados.

Dados econômicos contestam acusações

Para contrapor a proposta de tarifaço, o governo brasileiro apresenta estatísticas do Bureau of Economic Analysis (BEA) dos EUA, que indicam um superávit acumulado de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços para os Estados Unidos com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025). Somente em 2025, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões, e, considerando bens e serviços, o valor sobe para US$ 40,52 bilhões. A nota ainda destaca que 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação em 2025, e que oito dos dez principais produtos importados dos EUA pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo, derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos no Brasil foi de apenas 3,1%.

O governo brasileiro argumenta que as tarifas unilaterais, politicamente motivadas, impõem danos à economia nacional e à geração de emprego e renda, além de diminuir o papel dos EUA como parceiro comercial. “Não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX, mencionado explicitamente nas recomendações preliminares”, afirma a nota, em referência ao sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, alvo de críticas de setores conservadores nos EUA.

Panorama político e reações

A escalada na retórica entre Brasil e EUA ocorre em meio a um cenário de tensão política interna, com o governo Lula enfrentando pressões do Legislativo e críticas da oposição. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em evento em Goiás nesta terça, usou o mote de que o trabalho de articulação entre o Executivo e o governo norte-americano foi “sabotado”, ecoando o tom da nota oficial. Paralelamente, a equipe econômica do governo concedeu coletiva de imprensa para detalhar o posicionamento brasileiro, reforçando a defesa da soberania nacional e do sistema financeiro, como o PIX, que o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou como “conquista do povo brasileiro”.

A nota do governo brasileiro também cita a recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington como exemplo de ingerência externa, associando a investigação do USTR a interesses eleitorais da família Bolsonaro. O documento ressalta que “todo o trabalho de diálogo e articulação que o Governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos Presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares”. A reação brasileira ocorre em um momento de reconfiguração das relações comerciais globais, com os EUA adotando posturas protecionistas sob a administração Trump, enquanto o Brasil busca diversificar parcerias, como com a China e a União Europeia.

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