Lula justifica ausência na Marcha para Jesus para evitar exploração política da fé

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) justificou sua ausência na Marcha Para Jesus, realizada durante o feriado de Corpus Christi, nesta quinta-feira (4), em São Paulo, afirmando que não quis “tirar proveito político” do evento religioso. Em um vídeo publicado nas redes sociais do advogado-geral da União, Jorge Messias, o presidente falou diretamente ao AGU e ao apóstolo Estevam Hernandes — fundador do evento —, explicando que sua decisão foi tomada para evitar que sua presença fosse interpretada como uma tentativa de instrumentalizar a fé em benefício próprio ou do governo.

A declaração ocorre em um contexto de crescente tensão entre o governo federal e lideranças evangélicas, que têm criticado abertamente a gestão Lula em temas como direitos humanos, política ambiental e liberdade religiosa. A Marcha para Jesus, que reúne milhões de fiéis anualmente na capital paulista, é um dos maiores eventos religiosos do país e tem sido palco de manifestações políticas nos últimos anos. A ausência do presidente, portanto, não passou despercebida e gerou debates sobre a relação entre Estado e religião no Brasil.

Panorama político e religioso

A decisão de Lula de não comparecer ao evento reflete uma estratégia do Palácio do Planalto de evitar confrontos diretos com setores evangélicos, que representam uma parcela significativa do eleitorado e têm forte influência no Congresso Nacional. Nos últimos meses, o governo tem buscado diálogo com líderes religiosos, mas enfrenta resistência de grupos mais conservadores, que veem com desconfiança as políticas progressistas da administração petista. A Marcha para Jesus, organizada pela Igreja Apostólica Renascer em Cristo, é um termômetro dessa relação, e a ausência de Lula pode ser interpretada como um recuo tático.

O vídeo divulgado por Jorge Messias mostra Lula em tom cordial, mas firme, ao justificar sua ausência. “Não fui para não dar margem a interpretações de que estaria usando a fé para fins políticos”, disse o presidente, reforçando seu respeito pelas manifestações religiosas, mas destacando a necessidade de separar o exercício do poder da exploração da crença popular. A fala ecoa críticas anteriores de aliados e opositores sobre a politização de eventos religiosos, especialmente após a participação de figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro em edições passadas da marcha.

Especialistas apontam que a postura de Lula pode ter impacto nas eleições de 2026, quando o presidente tentará a reeleição. O eleitorado evangélico, que já foi decisivo em pleitos anteriores, continua sendo um alvo estratégico, mas a abordagem do governo tem sido cautelosa. Enquanto isso, a Marcha para Jesus deste ano contou com a presença de políticos de oposição, que aproveitaram o palco para criticar a gestão federal e reforçar pautas conservadoras.

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