As duas vítimas de ataques de tubarão registrados recentemente em praias da Região Metropolitana do Recife, uma universitária de 19 anos e um menino de 11 anos, deixaram a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital da Restauração (HR) e apresentam evolução no quadro de saúde, conforme boletim médico divulgado nesta quarta-feira (26). O caso reacende o debate sobre a segurança nas praias do litoral pernambucano e as políticas públicas de prevenção a incidentes com tubarões, que já vitimaram dezenas de banhistas nos últimos anos.
A universitária, identificada como Maria Eduarda Silva, de 19 anos, e o menino João Pedro Santos, de 11 anos, foram atacados em dias distintos, mas em praias próximas, na região conhecida como trecho de maior incidência de ataques no estado. Ambos passaram por cirurgias de emergência e permaneceram sob cuidados intensivos por vários dias. Agora, segundo a unidade de saúde, os pacientes estão em enfermarias, conscientes, respirando sem auxílio de aparelhos e com sinais vitais estáveis. A previsão é de que ambos continuem internados para reabilitação e acompanhamento de possíveis infecções, mas sem risco iminente de morte.
Panorama dos ataques e contexto regional
Os ataques ocorreram em um intervalo de menos de duas semanas, nas praias de Piedade e Candeias, ambas no município de Jaboatão dos Guararapes, área que concentra a maior parte dos incidentes com tubarões no litoral pernambucano. Dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) indicam que, desde 1992, foram registrados mais de 60 ataques na faixa costeira entre Recife e o Cabo de Santo Agostinho, com cerca de 25 mortes. A região abriga o Porto de Suape e apresenta características oceanográficas que atraem tubarões, como a presença de canais de navegação e a desembocadura de rios.
O Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Defesa Social e da Secretaria de Turismo, anunciou a intensificação da sinalização de risco nas praias e a ampliação do patrulhamento com guarda-vidas. No entanto, especialistas ouvidos pela reportagem apontam que as medidas educativas e de monitoramento ainda são insuficientes. O biólogo marinho Dr. Fábio Oliveira, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirma que “a redução de ataques depende de ações estruturais, como a instalação de redes de proteção em áreas críticas e o controle da pesca predatória, que desequilibra o ecossistema e aproxima os tubarões da costa”.
Impacto social e econômico
Os ataques geram impacto direto no turismo e na economia local. O setor hoteleiro e de serviços de Jaboatão dos Guararapes e Recife registrou queda de até 15% na ocupação durante o mês de junho, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-PE). A prefeitura de Jaboatão anunciou a criação de um programa de auxílio emergencial para ambulantes que dependem do movimento nas praias, mas comerciantes reclamam da falta de planejamento de longo prazo.
O caso também reacende a discussão sobre a responsabilidade do poder público na prevenção. Em 2023, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) instaurou um inquérito civil para investigar a omissão do estado na implementação de medidas de segurança, como a instalação de cercas de proteção e a manutenção de boias de sinalização. O processo ainda tramita na Justiça.
Medidas em debate e próximos passos
Diante dos novos casos, a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) convocou audiência pública para a próxima semana, com a participação de representantes do Cemit, da Secretaria de Meio Ambiente, da Marinha do Brasil e de prefeituras da região metropolitana. Entre as propostas em discussão estão a criação de um fundo estadual para indenização de vítimas e a ampliação do programa de monitoramento por drones e sonares nas praias de maior risco.
Enquanto isso, as famílias das vítimas aguardam a recuperação plena dos jovens. A mãe de João Pedro, Dona Célia Santos, em entrevista à reportagem, pediu “mais ação e menos promessas”. Já a família de Maria Eduarda informou que pretende acionar a Justiça para requerer indenização por danos morais e materiais. O Hospital da Restauração não divulgou previsão de alta, mas informou que ambos seguem em acompanhamento multidisciplinar, com fisioterapia e suporte psicológico.
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