O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou, nesta sexta-feira (5), a criação de um grupo de trabalho para realizar uma auditoria detalhada nos chamados penduricalhos — benefícios extras pagos a magistrados em todo o Poder Judiciário. A portaria foi assinada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do CNJ, Edson Fachin, e prevê a padronização dos contracheques e a revisão de verbas que, em muitos casos, elevam os salários acima do teto constitucional.
A medida surge em um contexto de crescente debate sobre a transparência e a sustentabilidade fiscal do sistema de Justiça no Brasil. Nos últimos anos, relatórios do próprio CNJ e de órgãos de controle apontaram a existência de dezenas de tipos de penduricalhos — como auxílios, gratificações e indenizações — que, somados, podem ultrapassar o subsídio mensal dos magistrados, gerando os chamados supersalários. A situação tem sido alvo de críticas de entidades da sociedade civil e de parlamentares, que defendem a necessidade de um pente-fino rigoroso.
O grupo de trabalho será composto por conselheiros do CNJ, técnicos do tribunal e representantes de associações de magistrados. Entre suas atribuições estão o levantamento de todos os penduricalhos em vigor nos tribunais estaduais e federais, a análise da legalidade de cada verba e a proposição de medidas para uniformizar os contracheques. A expectativa é que os trabalhos sejam concluídos em até 180 dias, com a apresentação de um relatório final ao plenário do CNJ.
Panorama político e impacto social
A iniciativa de Edson Fachin ocorre em meio a um cenário de pressão por maior controle dos gastos públicos e de discussões sobre a reforma administrativa no Congresso Nacional. Diferentes setores políticos, da oposição à base governista, têm demonstrado apoio à transparência nos contracheques do Judiciário, embora haja divergências sobre a profundidade das mudanças. Enquanto partidos de esquerda defendem o fim dos penduricalhos como forma de reduzir desigualdades, parlamentares de centro e direita condicionam a medida a uma revisão mais ampla das carreiras públicas.
Para especialistas em direito administrativo, a padronização dos contracheques pode representar um avanço significativo na prestação de contas do Judiciário, mas alertam para a complexidade técnica do processo. “A diversidade de benefícios criados ao longo de décadas exige um trabalho minucioso para evitar judicializações e garantir segurança jurídica”, afirma a professora de direito público Ana Lúcia Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP).
Do ponto de vista social, a auditoria nos penduricalhos é vista como um passo importante para restaurar a confiança da população no sistema de Justiça. Pesquisas recentes indicam que a percepção de privilégios entre magistrados é um dos fatores que mais contribuem para a descrença nas instituições. A medida, portanto, pode ter impacto direto na imagem do Judiciário, especialmente em um ano eleitoral.
A portaria assinada por Fachin também estabelece que o grupo de trabalho deverá propor mecanismos de transparência ativa, como a divulgação trimestral dos contracheques detalhados de todos os magistrados, em formato acessível ao cidadão comum. A iniciativa se alinha a recomendações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e de organismos internacionais de combate à corrupção.
O CNJ já havia realizado, em 2024, um levantamento preliminar que identificou ao menos 47 tipos diferentes de penduricalhos em tribunais de todo o país, com valores que variam de R$ 500 a R$ 30 mil por mês. A expectativa é que o novo grupo de trabalho aprofunde esses dados e apresente soluções concretas para eliminar irregularidades e reduzir a disparidade entre os salários dos magistrados e a realidade da maioria da população brasileira.
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