No domingo, o repórter Vinícius Valfré revelou que o Ministério da Fazenda impôs um sigilo de até cem anos aos documentos que tratam da autorização para o funcionamento de casas de apostas no Brasil. A medida, publicada em reportagem do jornal Folha de S.Paulo, excluiu até a hipótese de se liberar somente os trechos que não contivessem informações sensíveis, gerando reações imediatas de institutos de transparência e entidades do setor.
O sigilo, classificado como de acesso restrito por prazo máximo previsto em lei, atinge todos os processos administrativos relacionados à liberação de bets — empresas de apostas esportivas e jogos online — que buscam operar legalmente no país. A decisão do Ministério da Fazenda impede que cidadãos, jornalistas e organizações da sociedade civil tenham acesso a informações como critérios de seleção, prazos de análise e eventuais irregularidades nos pedidos de autorização.
Reações e críticas ao sigilo
O Instituto de Defesa do Consumidor e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo condenaram a medida, classificando-a como um retrocesso na política de transparência pública. Em nota conjunta, as entidades afirmaram que o sigilo de cem anos “fere o princípio constitucional da publicidade dos atos administrativos e dificulta o controle social sobre um setor que movimenta bilhões de reais”.
O próprio Ministério da Fazenda justificou a decisão alegando que os documentos contêm dados comerciais sensíveis das empresas requerentes, como estratégias de negócio e informações financeiras protegidas por sigilo fiscal. No entanto, críticos apontam que a medida é desproporcional, já que a lei permite a liberação de versões editadas dos documentos, ocultando apenas os trechos efetivamente sensíveis.
Panorama político e econômico
A imposição do sigilo ocorre em meio a um debate acirrado no Congresso Nacional sobre a regulamentação das apostas online. Projetos de lei em tramitação propõem regras mais rígidas para o setor, incluindo mecanismos de transparência e combate à lavagem de dinheiro. A decisão do governo federal, no entanto, é vista por parlamentares da oposição como uma tentativa de blindar o processo de autorização contra questionamentos judiciais e da opinião pública.
O mercado de apostas no Brasil movimenta estimados R$ 12 bilhões por ano, segundo dados da Associação Brasileira de Loterias e Apostas. A falta de transparência nos critérios de autorização pode abrir espaço para favorecimentos e captura regulatória, alertam especialistas em direito administrativo. A medida também contrasta com as promessas de governo aberto feitas pelo Executivo federal nos últimos anos.
Até o fechamento desta edição, o Ministério da Fazenda não se manifestou oficialmente sobre a possibilidade de revisar o sigilo ou de publicar versões editadas dos documentos. A reportagem da Folha de S.Paulo, assinada por Vinícius Valfré, segue como a principal fonte de informações sobre o caso, que deve gerar novos desdobramentos nos próximos dias.
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