Um estudo genético realizado na Sibéria sugere que a peste bubônica pode ser milhares de anos mais antiga do que se imaginava, com evidências encontradas em restos humanos datados de aproximadamente 3.800 anos. A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, analisou DNA de dentes e ossos de indivíduos enterrados em um sítio arqueológico na região siberiana, identificando a presença da bactéria Yersinia pestis, causadora da doença. A descoberta desafia a cronologia estabelecida, que até então situava as primeiras manifestações da peste bubônica por volta do século VI d.C., durante a chamada Peste de Justiniano.
De acordo com os pesquisadores, liderados por Maria Spyrou, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, a cepa encontrada na Sibéria é a mais antiga já identificada e apresenta características genéticas que indicam uma transição evolutiva crucial: a capacidade de ser transmitida por pulgas, o que tornou a doença altamente contagiosa entre humanos. “Essa descoberta mostra que a peste bubônica já estava circulando em populações humanas muito antes das grandes pandemias históricas, o que sugere que a doença pode ter tido um impacto significativo em sociedades antigas, possivelmente contribuindo para mudanças demográficas e culturais”, afirmou Spyrou em comunicado à imprensa.
O estudo também aponta que a cepa siberiana é ancestral das cepas que causaram a Peste Negra na Europa medieval (século XIV) e a Peste de Justiniano no Império Bizantino. A análise genética revelou que a bactéria já possuía o gene ymt, essencial para a transmissão por pulgas, o que indica que a forma bubônica da doença — caracterizada por inchaços nos gânglios linfáticos — já existia milênios antes do que se pensava. “Isso muda nossa compreensão sobre como a peste se espalhou e evoluiu ao longo do tempo”, destacou Johannes Krause, coautor do estudo e diretor do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana.
Impacto histórico e social
A descoberta tem implicações profundas para a arqueologia e a história. A peste bubônica é frequentemente associada a pandemias que dizimaram populações inteiras, como a Peste Negra, que matou entre 30% e 60% da população europeia no século XIV. No entanto, o novo estudo sugere que surtos menores e localizados podem ter ocorrido na Idade do Bronze, afetando comunidades na Eurásia. “Não sabemos ainda o tamanho do impacto, mas é possível que a peste tenha contribuído para o colapso de algumas sociedades antigas, especialmente em regiões onde o comércio e a mobilidade humana já eram intensos”, explicou Simon Rasmussen, da Universidade de Copenhague, que também participou da pesquisa.
Os restos humanos analisados foram encontrados em um cemitério na Sibéria Ocidental, perto do rio Ob, e pertencem a indivíduos de uma cultura conhecida como Andronovo, que floresceu entre 2.000 e 1.500 a.C. A análise de DNA mostrou que a bactéria estava presente em dois indivíduos, sugerindo que a doença já era endêmica na região. “É um achado notável, porque mostra que a peste bubônica não surgiu de repente na história, mas evoluiu gradualmente, possivelmente em paralelo com o desenvolvimento de assentamentos humanos e o aumento do contato entre populações”, acrescentou Krause.
Panorama político e científico
A pesquisa ocorre em um momento de crescente interesse pela história das pandemias, impulsionado pela experiência recente da COVID-19. Cientistas de todo o mundo têm se dedicado a entender como doenças infecciosas moldaram a trajetória humana, desde a Idade da Pedra até os dias atuais. O estudo siberiano, financiado por instituições alemãs e dinamarquesas, também levanta questões sobre a relação entre mudanças climáticas e o surgimento de patógenos. “A Idade do Bronze foi um período de grandes transformações ambientais e sociais, com o surgimento de rotas comerciais de longa distância. Isso pode ter facilitado a disseminação da peste”, observou Spyrou.
No entanto, especialistas alertam que ainda há muitas lacunas a serem preenchidas. “Precisamos de mais amostras de diferentes regiões e períodos para entender completamente a história da peste bubônica”, disse Rasmussen. Apesar disso, o estudo representa um avanço significativo, mostrando que a doença é muito mais antiga do que se supunha e que sua evolução está intrinsecamente ligada à história da humanidade. “A peste bubônica não é apenas uma doença do passado medieval; ela tem raízes profundas na pré-história”, concluiu Krause.
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