O Brasil propôs a construção de uma aliança estratégica com Argentina e Paraguai para reduzir a histórica resistência da Europa aos biocombustíveis – como o etanol, o biodiesel e o SAF (combustível sustentável de aviação) – produzidos na América Latina. A iniciativa, revelada em 19 de junho de 2026, busca unir os três maiores produtores regionais do setor para negociar em bloco com o mercado europeu, que impõe barreiras técnicas e tarifárias aos combustíveis renováveis vindos do continente.
A proposta brasileira ganha relevância em um momento de acirramento das disputas comerciais no âmbito do G20, onde o Brasil e a Europa já protagonizaram embates sobre biocombustíveis em abril de 2024. Na ocasião, o governo brasileiro defendeu a certificação internacional do etanol como combustível limpo, enquanto a União Europeia manteve restrições baseadas em critérios ambientais e de sustentabilidade. Agora, ao somar forças com Argentina e Paraguai, o Brasil pretende ampliar o poder de barganha e apresentar um bloco coeso capaz de dialogar com os reguladores europeus.
Impactos econômicos e geopolíticos
A aliança trilateral pode movimentar bilhões de dólares em exportações. O etanol brasileiro, por exemplo, já é um dos mais competitivos do mundo, com custo de produção inferior ao europeu e ao norte-americano. O biodiesel argentino, por sua vez, tem grande potencial de expansão, enquanto o Paraguai desponta como produtor emergente de matéria-prima para biocombustíveis. Juntos, os três países respondem por mais de 60% da produção de etanol das Américas e por parcela significativa do biodiesel global.
Do ponto de vista geopolítico, a iniciativa reforça a integração sul-americana em um setor estratégico para a transição energética global. A Europa, pressionada a cumprir metas climáticas ambiciosas, busca fontes renováveis de energia, mas historicamente privilegia fornecedores internos ou de regiões com acordos comerciais consolidados. A aliança Brasil-Argentina-Paraguai visa justamente quebrar esse paradigma, oferecendo um produto certificado e em escala capaz de atender à demanda europeia.
Desafios e próximos passos
Apesar do potencial, o caminho é espinhoso. A resistência europeia não se limita a questões tarifárias: envolve também normas ambientais rigorosas, como as diretrizes de uso da terra e de emissões indiretas. O Brasil, por exemplo, já foi alvo de críticas por desmatamento associado à expansão da cana-de-açúcar, embora o etanol de cana tenha pegada de carbono significativamente menor que a gasolina. Argentina e Paraguai enfrentam desafios semelhantes relacionados à soja e ao milho usados na produção de biodiesel.
Nos próximos meses, os três países devem formar grupos técnicos para alinhar padrões de sustentabilidade, certificação e logística de exportação. A expectativa é que uma proposta conjunta seja apresentada à Comissão Europeia ainda em 2026, aproveitando a janela de revisão das metas de energia renovável do bloco. Caso bem-sucedida, a aliança pode se tornar um modelo de cooperação Sul-Sul em biocombustíveis, abrindo portas para outros mercados, como Ásia e África.
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