O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), articulam uma ampliação de benefícios para os Microempreendedores Individuais (MEIs) como moeda de troca para garantir apoio parlamentar ao projeto que propõe o fim da escala de trabalho 6×1. A proposta, entregue pelo Palácio do Planalto ao Congresso Nacional, prevê o aumento gradual do teto de faturamento anual dos MEIs, a possibilidade de contratação de mais um funcionário e medidas para evitar um impacto fiscal estimado em R$ 50 bilhões por ano.
O projeto de lei, protocolado na última quarta-feira (25), estabelece que o limite de faturamento dos MEIs passará dos atuais R$ 81 mil para R$ 120 mil em 2026, com reajustes anuais baseados no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Além disso, a proposta permite que o MEI contrate um empregado adicional, desde que o salário não ultrapasse um salário mínimo e meio, ampliando a capacidade de geração de empregos formais no setor.
O governo estima que a medida, se aprovada sem alterações, terá um impacto fiscal de R$ 50 bilhões por ano, decorrente da renúncia fiscal e do aumento de despesas com a formalização de novos empreendedores. Para conter esse efeito, o texto prevê a criação de um fundo de compensação, financiado por parte da arrecadação do Simples Nacional e por recursos do Orçamento da União, além de um mecanismo de transição gradual para evitar desequilíbrios nas contas públicas.
Panorama político e articulação no Congresso
A articulação entre o governo e o presidente da Câmara ocorre em um contexto de intensa negociação para aprovar o fim da escala 6×1, que prevê a redução da jornada de trabalho semanal de 44 para 36 horas, com folga aos sábados e domingos. A proposta, defendida por centrais sindicais e parte da base aliada, enfrenta resistência de setores empresariais e de parlamentares ligados ao agronegócio e ao comércio. A ampliação dos benefícios para MEIs surge como um atrativo para conquistar o apoio de deputados que representam pequenos empresários e empreendedores individuais.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, tem atuado como interlocutor entre o Planalto e as bancadas partidárias, buscando construir uma maioria que viabilize a votação do projeto. Em reuniões nos últimos dias, Motta sinalizou que a ampliação dos benefícios aos MEIs pode ser um “ponto de equilíbrio” para garantir a aprovação da reforma trabalhista, mas alertou que o impacto fiscal precisa ser detalhado e compensado. A oposição, por sua vez, critica a medida como “populista” e questiona a capacidade do governo de arcar com os custos sem comprometer o ajuste fiscal.
O debate ocorre em meio a outras pautas econômicas sensíveis, como a regulamentação do vínculo trabalhista em aplicativos de transporte e entrega, que está em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), e as obras de infraestrutura em estados como Alagoas, que mobilizam lideranças regionais. A aprovação do projeto pode ter impacto direto na formalização de milhões de trabalhadores informais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a taxa de empreendedorismo individual é mais alta.
O governo Lula aposta na ampliação dos benefícios aos MEIs como uma estratégia para fortalecer a base de apoio no Congresso e impulsionar a geração de empregos formais, em um momento de desaceleração econômica. A proposta, no entanto, ainda precisa passar pelas comissões técnicas da Câmara e do Senado, onde deve enfrentar debates acirrados sobre sua viabilidade fiscal e seus efeitos sobre o mercado de trabalho.
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