Terapia fora do consultório: adolescentes tratam ansiedade e TDAH em casas de jogos, parques e shoppings em SP

Em uma sala de uma casa de jogos em Moema, na Zona Sul de São Paulo, quatro adolescentes e dois adultos se reúnem em uma quinta-feira à noite. Entre lanches e bebidas, cartas mudam de mãos, alianças são formadas e blefes arrancam risadas da mesa durante partidas de jogos como Coup, Dixit e Saboteur. À primeira vista, a cena lembra uma noite de jogos entre amigos. Mas os jovens nunca haviam se visto antes. Dois dos participantes eram, na verdade, um psicólogo e um acompanhante terapêutico. Já os outros quatro, adolescentes de 15 a 17 anos em tratamento para transtornos como TDAH e ansiedade, além de dificuldades de socialização. O g1 acompanhou a noite de games do grupo e também participou de algumas rodadas no último dia 18.

O objetivo dos profissionais é tirar os pacientes do consultório e inseri-los em uma situação do cotidiano. Em vez de conversas em uma sala de atendimento, a proposta é estimular habilidades como comunicação, convivência social, trabalho em equipe e tolerância à frustração por meio dos jogos. A atividade faz parte do acompanhamento terapêutico: modalidade em que o tratamento ultrapassa os limites do consultório e pode acontecer na escola, em um shopping, em um parque, em uma academia ou até em uma mesa de jogos.

Jogos como ferramenta terapêutica

Naquela noite, os jogos não foram escolhidos por acaso. Em Saboteur, os participantes precisam desconfiar uns dos outros para descobrir quem era o sabotador e lidar com a frustração de ver uma estratégia dar errado. Em Coup, o blefe é praticamente obrigatório para conquistar a vitória. Já Dixit exige criatividade e interpretação de imagens surrealistas. Em uma das partidas de Saboteur, jogo em que os participantes assumem o papel de mineiros ou sabotadores, um dos adolescentes resolveu blefar mesmo quando estava no time que deveria colaborar com os colegas. Fingia atrapalhar o grupo apenas pela diversão de ver as reações à mesa. Outro adolescente, que mora há cinco meses nos Estados Unidos e nunca havia brincado com jogos de tabuleiro, conseguiu deixar o celular de lado ao longo das partidas e comentou que queria encontrar uma versão em inglês para apresentar a brincadeira aos amigos.

Foi justamente esse tipo de interação que motivou a escolha da atividade, segundo o psicólogo Rafael Baptista de Melo, diretor da clínica Revitaliz e responsável pela organização do encontro. “A escolha do ambiente não é aleatória. Onde a gente vai e o que a gente vai fazer já faz parte da estratégia de intervenção, levando em conta as demandas daquela pessoa.” Segundo o psicólogo, a proposta do acompanhamento terapêutico é levar a intervenção para o ambiente natural do paciente, onde a terapia se integra à vida real, ampliando o impacto do tratamento.

O panorama político geral para a saúde mental no Brasil mostra um cenário de desafios. Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça serviços como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), a demanda por atendimento especializado, especialmente para adolescentes, cresce de forma acelerada. Iniciativas como a de Rafael Baptista de Melo exemplificam a busca por alternativas inovadoras para complementar o tratamento tradicional, mas especialistas alertam para a necessidade de investimentos públicos em políticas de saúde mental que integrem abordagens comunitárias e preventivas. A falta de profissionais capacitados e a desigualdade no acesso a serviços de qualidade continuam sendo barreiras significativas para a população jovem.

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