Com o mundo evoluindo em velocidade cada vez maior, a neurocientista Hannah Critchlow, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, propõe um olhar otimista sobre a capacidade humana de se adaptar às transformações tecnológicas e sociais. Em seu novo livro, The 21st Century Brain (“O cérebro do século 21”, em tradução livre), ela descreve como todos podem cultivar a flexibilidade mental necessária para enfrentar os desafios da era da inteligência artificial (IA), sem depender de upgrades literais — já que nosso cérebro, praticamente igual ao dos ancestrais da Idade da Pedra, encolheu significativamente nos últimos 10 mil anos, segundo restos arqueológicos.
Critchlow, que escreveu a obra para si mesma, para os pais e para o filho de 10 anos, explica que o livro nasceu da necessidade de tomar decisões mais acertadas e melhorar a própria vida, especialmente na meia-idade. “Mas também escrevi para os meus pais, para que eles possam manter o cérebro saudável na terceira idade, e para meu filho. O que posso fazer para ajudar seu cérebro a florescer?”, questiona a pesquisadora, em entrevista à BBC.
IA e neurociência: uma via de mão dupla
A obra foi concebida há três anos, período em que o desenvolvimento da inteligência artificial explodiu. Critchlow observa que, mesmo naquela época, já era evidente que a IA começaria a invadir toda a vida, tanto em nível social quanto individual, gerando entusiasmo e medo. “Eu quis dar um passo atrás e reconhecer que a IA se desenvolveu com base no conhecimento obtido com a neurociência. E se nós invertêssemos aquilo e perguntássemos como podemos usar este conhecimento para extrair o máximo da inteligência que temos no nosso próprio cérebro orgânico?”, indaga.
A neurocientista defende que o mesmo conhecimento que levou aos avanços tecnológicos também pode revelar o potencial cognitivo humano presente em todos nós. Em vez de focar apenas nas habilidades tradicionalmente valorizadas, ela selecionou capacidades frequentemente menosprezadas pelos cientistas, como a conexão com os demais, a imaginação de novos mundos, a inovação, a resolução de problemas e o pensamento de longo prazo.
Habilidades para o século 21
Critchlow enfatiza a importância de tolerar mudanças, incertezas e ambiguidades, características essenciais em uma época de transformações sociais e tecnológicas sem precedentes. “Tudo isso, basicamente, exige ‘bioenergia’ — a capacidade de manter o cérebro saudável e adaptável”, explica. Entre as dicas práticas, ela sugere atividades como caminhadas na natureza, que podem libertar as algemas do pensamento e revelar a criatividade.
A pesquisadora também alerta para a necessidade de equilibrar o uso da tecnologia com práticas que estimulem a neuroplasticidade, como o aprendizado contínuo, a meditação e o contato social. “Não se trata de competir com a IA, mas de usar o que sabemos sobre o cérebro para potencializar nossas habilidades únicas”, conclui.
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