A 68ª cúpula do Mercosul, realizada nesta terça-feira (30) em Assunção, Paraguai, foi marcada por críticas às assimetrias no acordo de livre comércio com a União Europeia e pelo anúncio de que o bloco pretende iniciar em breve negociações comerciais com a China, enquanto amplia sua agenda de acordos com outros parceiros globais. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou que o Mercosul mantém negociações com Canadá, Índia e Vietnã, iniciou tratativas para uma parceria econômica com o Japão e pretende fazer o mesmo com a China. “O Mercosul está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Nesta cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta”, disse Lula.
O bloco econômico regional sul-americano, criado em 1991 e atualmente integrado por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia, tem como objetivo promover a integração econômica e aduaneira, além da livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países membros. Em outro momento do discurso, o presidente brasileiro também criticou o que chamou de “alinhamento automático” e “escolhas excludentes” na política externa. “Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes”, afirmou Lula, sinalizando uma postura de autonomia estratégica do bloco em meio às tensões geopolíticas globais.
Críticas às assimetrias com a União Europeia
A reunião também foi marcada por críticas do presidente do Paraguai, Santiago Peña, às “assimetrias” na implementação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. “Para que negociamos com a Europa se o acesso a novos mercados não há de servir para desenvolver o que ainda não está desenvolvido?”, questionou Peña. A declaração faz referência à divisão, entre os países do Mercosul, das cotas de exportação com tarifas reduzidas para a venda de produtos ao mercado europeu. Ao abrir a cúpula, Peña afirmou que os países do bloco enfrentam condições desiguais para aproveitar os benefícios do acordo. “O campo não está nivelado para todos por igual, não temos o mesmo mercado, nem as mesmas indústrias, nem a mesma logística”, disse.
O presidente paraguaio defendeu que a distribuição das cotas seja revista e cobrou “resultados concretos” para corrigir as “assimetrias”. Segundo ele, o Paraguai ficou com um “gosto amargo” da implementação inicial do acordo. “Se o Mercosul quer ser confiável para fora, primeiro deve ser justo para dentro”, afirmou Peña. “O Paraguai mantém sua posição sobre a distribuição das cotas. Isto não é um capricho, isto é justiça”, acrescentou. A declaração expõe as tensões internas no bloco, onde países menores como Paraguai e Uruguai historicamente reivindicam maior equilíbrio nas regras comerciais.
Solidariedade à Venezuela e panorama político
Os chefes de Estado também manifestaram solidariedade à Venezuela após os terremotos da última semana, demonstrando a preocupação do bloco com a estabilidade regional. O movimento do Mercosul em direção à China ocorre em um contexto de crescente influência chinesa na América Latina, com Pequim já sendo o principal parceiro comercial de vários países da região, como Brasil, Argentina e Chile. A aproximação com a China, no entanto, pode gerar atritos com os Estados Unidos e a União Europeia, que veem com preocupação o avanço chinês em áreas estratégicas. A cúpula de Assunção reforça a tendência do Mercosul de diversificar suas parcerias comerciais, buscando reduzir a dependência de mercados tradicionais e ampliar o acesso a economias dinâmicas, como a chinesa e a japonesa, enquanto tenta resolver as desigualdades internas que ameaçam a coesão do bloco.
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