Um servidor público municipal de Divinópolis, em Minas Gerais, foi indiciado pela Polícia Civil por torturar a própria esposa, mantendo-a nua e em cárcere privado por aproximadamente oito dias, além de obrigá-la a consumir crack. O caso, que chocou a cidade do Centro-Oeste mineiro, foi revelado nesta quarta-feira (26) pela corporação, que detalhou as agressões físicas e psicológicas sofridas pela vítima, uma mulher de 32 anos. O indiciamento ocorre após investigação que durou semanas e incluiu depoimentos, exames periciais e apreensão de provas.
De acordo com o delegado responsável pelo caso, Dr. Ricardo Mendes, a vítima foi submetida a sessões diárias de violência, incluindo espancamentos, queimaduras de cigarro e ameaças de morte. “Ela ficou nua, sem acesso a roupas ou banheiro, e era forçada a inalar crack sob pena de sofrer mais agressões”, afirmou o delegado em coletiva de imprensa. O servidor, que trabalha na Secretaria Municipal de Obras, foi preso em flagrante no último dia 18, após a vítima conseguir fugir e pedir ajuda a vizinhos. A identidade do agressor não foi divulgada para preservar a investigação.
Detalhes do crime e a luta da vítima
As investigações apontam que a tortura começou após uma discussão banal, quando o servidor acusou a esposa de infidelidade. Durante os oito dias de cárcere, a mulher foi mantida trancada em um quarto, sem comida ou água por longos períodos. Ela também sofreu cortes com faca e teve o cabelo raspado à força. “Ela apresentava múltiplas lesões pelo corpo, desidratação severa e sinais de dependência química induzida”, detalhou o perito Dr. Carlos Almeida, que realizou o laudo. A vítima, que está em abrigo sigiloso, recebe acompanhamento psicológico e médico.
O caso ganhou repercussão nacional e reacendeu o debate sobre a eficácia das medidas protetivas no Brasil. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2025, Minas Gerais registrou mais de 12 mil denúncias de violência doméstica, com um aumento de 15% em relação ao ano anterior. A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social informou que a vítima não havia solicitado medida protetiva antes do ataque, mas que agora está amparada pela rede de acolhimento. “É fundamental que as mulheres denunciem ao primeiro sinal de violência. Estamos aqui para protegê-las”, declarou a secretária Ana Paula Silva.
O servidor, que não possuía antecedentes criminais, responderá por tortura qualificada, cárcere privado, lesão corporal e tráfico de drogas (por fornecer crack à vítima). A pena pode chegar a 30 anos de reclusão. A Prefeitura de Divinópolis informou, em nota, que abriu processo administrativo para demissão do funcionário e que está colaborando com a Justiça. “Repudiamos veementemente qualquer ato de violência contra a mulher. Medidas internas já foram tomadas”, diz o comunicado.
O caso também expõe a vulnerabilidade de mulheres em relacionamentos abusivos, especialmente quando o agressor é um servidor público, figura de autoridade na comunidade. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Divinópolis anunciou que oferecerá assistência jurídica gratuita à vítima. “Não podemos tolerar que o poder público abrigue agressores. Vamos acompanhar o processo de perto”, afirmou o presidente da OAB local, Dr. João Batista.
Enquanto isso, a cidade de Divinópolis, com cerca de 240 mil habitantes, vive um clima de comoção e medo. Moradores do bairro onde o crime ocorreu organizaram uma vigília para a vítima e cobram maior rigor na aplicação da Lei Maria da Penha. “Sabíamos que algo estranho acontecia, mas nunca imaginamos essa crueldade”, disse a vizinha Maria Aparecida, de 58 anos. A Polícia Civil segue investigando se o servidor tem outras vítimas e se houve conivência de terceiros.
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