Um estudante de 21 anos, do curso de medicina da Universidade Federal de Roraima (UFRR), denunciou ter sido vítima de ameaças e ofensas xenofóbicas feitas por Antonio Hildemar Campos, de 62 anos, também aluno da instituição. Os episódios ocorreram dentro do campus Paricarana, em Boa Vista, e a Polícia Civil investiga o caso. O jovem, que é migrante venezuelano e preferiu não se identificar na reportagem, registrou três boletins de ocorrência contra Antonio no 2º Distrito Policial, por ameaça e outros conflitos. A denúncia também foi feita à Ouvidoria da Universidade, que abriu investigação interna.
Antonio Hildemar é aluno do curso de Geografia, ex-policial civil e conhecido como “Gavião”. Ele nega as acusações. A Polícia Civil informou que investiga as denúncias contra o suspeito e que ele “também é citado em outros registros por suposta prática do crime de ameaça, circunstância considerada nas investigações”.
Relato do estudante de medicina
As ofensas e ameaças ocorreram entre setembro de 2025 e junho deste ano, segundo o estudante de medicina. Desde então, ele diz ser alvo de xenofobia e intimidações em diferentes ocasiões dentro da UFRR. “Estou sendo intimidado”, resumiu o jovem.
O primeiro caso aconteceu em setembro de 2025, no Restaurante Universitário, enquanto o estudante jantava com uma colega. Segundo o relato, Antonio, conhecido como “Gavião”, chegou ao restaurante ouvindo música em volume alto e sentou perto de onde o jovem estava. Ao acreditar que o ex-policial também era venezuelano, o jovem pediu, em espanhol, que ele diminuísse o volume do som. Na ocasião, o suspeito gritou e respondeu que “no Brasil não faziam as coisas assim” e que, se ele não estivesse satisfeito, deveria “vazar”. “Fui pedir para ele, respeitosamente, se podia diminuir o volume da música, porque ele colocava a música estourando. Aí ele começou a ser xenofóbico comigo. Ficou falando: ‘Ah, não, que no Brasil a gente não faz as coisas desse jeito’, que se eu não gostava era para eu vazar”, contou o jovem.
O episódio mais recente ocorreu em 19 de junho de 2026. De acordo com o jovem, o suspeito sentou na mesma mesa que o estudante e, ao perceber que o jovem tentava deixar o local, passou a intimidá-lo dizendo frases como “os incomodados se retirem” e “te vaza, veneca” — o termo é usado de forma pejorativa para se referir a venezuelanos. O estudante disse que jogou um copo de água no rosto do ex-policial por se sentir intimidado. Segundo ele, o homem continuou as ameaças.
Panorama político e social
O caso ocorre em um contexto de aumento da migração venezuelana para Roraima, estado que tem sido porta de entrada para milhares de refugiados e migrantes. A xenofobia contra venezuelanos tem sido registrada em diversas regiões do Brasil, com episódios de violência verbal e física. A Universidade Federal de Roraima, como instituição pública, tem o dever de garantir um ambiente seguro e livre de discriminação para todos os seus alunos, independentemente de nacionalidade. A investigação da Polícia Civil e a apuração interna da Ouvidoria da UFRR são passos importantes para responsabilizar os envolvidos e coibir novas ocorrências. O caso também levanta questões sobre a atuação de ex-policiais em ambientes acadêmicos e a necessidade de políticas de acolhimento e combate ao preconceito nas universidades.
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